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Chico Xavier - 1971 - Revista Realidade - Editora Abril

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Macili
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Chico Xavier - 1971


Texto de Hamilton Ribeiro
Revista Realidade - Editora Abril
Novembro de 1971



Uberaba, sexta-feira, 7 da noite. Sessenta carros - de jipe a Mercedes - estão estacionados no quarteirão recém-asfaltado da Comunhão Espírita Cristã. As chapas variam de Monte Castelo a Guanabara, de Itumbiara, de São Paulo. O bairro é pobre, mal iluminado, cheio de crianças. Nesse bairro fica hoje o "Vaticano do Espiritismo".

Umas mil pessoas aguardam com ansiedade. Os que chegaram mais cedo conseguiram lugar no templo - um salão de 100 metros quadrados - e estão sentados ou em pé. Crianças irritadas, cansadas de viagem, resmungam ou choram. Quem não pôde entrar ajeita-se nos bancos do pátio onde à tarde, o ano todo, é servida uma sopa dos pobres: oitocentos pratos por dia. Há duas filas que se confundem: uma para receber passes; outra de gente que espera as receitas de Chico Xavier.

Através de uma janelinha, um senhor atende a pedidos de livros e por aí se forma mais uma fila - a dos autógrafos. Dona Dalva Borges, presidente do Centro, organiza a mesa: gente da diretoria, doutrinadores espíritas, convidados. Enquanto a sessão não começa, há no ambiente uma confusão de vozes, um burburinho. Pessoas trançam de um lado para outro. De repente, uma lufada de rosas corta o ar. Daí a pouco, outra vez a onda de perfume. Vem de um senhor que organiza as filas; ele usa esse perfume, e a lufada o acompanha de um lado para o outro.

- Por onde o ti Chico entra?
Em Uberaba e outras regiões, não se fala tio Zé, tio João. J ti Zé, ti João. É ti Chico.
- Ti Chico entra no templo pela portinha do fundo, lá junto da mesa.

Continua chegando gente. A procura atrás de Chico Xavier quase dobrou, após sua entrevista no "Pinga-Fogo" - um verdadeiro show de televisão que elevou de 2% para 35% a audiência do programa (passou três vezes em São Paulo e percorreu todo o Brasil).

Sete e meia. Crianças continuam excitadas, o vozerio e o burburinho aumentam. Mas num instante as vozes se abafam e todos se movimentam às pressas em busca de um lugar entre as cadeiras. Ou de pé, ao longo do corredor; nas duas janelas que dão para o pátio; em cima dos bancos. Crianças são alçadas pelos pais para poderem ver. A portinha do fundo se abriu e por ela entrou ti Chico Xavier. Vozes sussurram:
- Graças a Deus!

Na cabeceira da mesa, ao lado de dona Dalva, a figura tranqüila, sorridente, mansa, de Francisco Cândido Xavier, 61 anos, um rosto muito fino para o resto do corpo - principalmente da cintura para baixo -, os óculos escuros para esconder um olho congestionado. Paletó igual à calça, uma camisa esporte cor-de-rosa. Uma peruca de alguns fios brancos na massa preta de cabelos. Os que estão mais perto o cumprimentam. Se lhe beijam a mão, ele beija a mão em troca. Se lhe beijam o rosto, ele retribui. Se é um amigo, os beijos são duplos, um em cada face - do jeito que as mulheres fazem (mas sem o terceiro, o "para casar"). Sorri muito e faz com que todos sorriam. Vai enchendo desordenadamente os bolsos do paletó com envelopes, bilhetes, cartões, um endereço anotado na hora. A presidente faz um sinal e o ambiente se cerca do maior silêncio - a sessão vai começar.

De maneira um pouco solene, dona Dalva Borges - quarenta e poucos anos, solteira - faz a oração inicial. Tem os olhos fechados e todos, na mesa, fecham os seus. Pede a proteção "dos seres da Vida Maior" para que o serviço da noite seja o mais puro e o mais proveitoso. Uma pessoa da mesa começa a ler o Evangelho Segundo o Espiritismo.

Chico mora numa casa tão protegida como, uma fortaleza. E gosta de rir. Eis um homem com presença de espírito!

Chico está com a mão sobre os olhos. Mal ouve o fim da leitura, levanta-se. Recebe um pacote de folhas de papel e se encaminha para a porta por onde entrou. Ali, numa salinha, ajudado por dois assistentes - o sr. Weaker e sua mulher, dona Isildinha, vai receber orientação dos espíritos para psicografar receitas e conselhos.

Esse é um dos prodígios de Chico Xavier. Nos pedidos, só vão o nome, a idade e o endereço - nenhuma indicação quanto à doença ou ao problema. Sem ter visto a pessoa, o médium, em sua salinha, num papel colado junto daquele em que está o nome do consulente, indica os remédios e as palavras que devem aliviar um problema físico ou uma situação de angústia.

Entre os seiscentos pedidos de hoje, dois são meus. Um, de uma amiga de São Paulo, que sofre há mais de ano com uma alergia muito incômoda. Outro não é de nenhuma amiga. Fico aguardando a resposta com muita curiosidade, e até com certo temor. O que dirão os espíritos, pela via mediúnica de Chico Xavier, a esses dois casos tão diferentes entre si?

Em outra salinha escura, um passista ministra água fluidificada e faz imposição de mãos nas pessoas que entraram na fila de passes. Na mesa, a doutrinação continua - leitura e interpretação de textos espíritas.

Metade do pessoal já deixou o templo e está outra vez no pátio. Sentam-se nos bancos da sopa, conversando, fumando, de olho num café que pode sair da cozinha. Enquanto Chico não volta, o burburinho recomeça. E de nada adiantam os esforços do homem do perfume, que circula com uma tabuleta pedindo "silêncio e recato".



Um armazém para guardar o que ganha



Muito preocupado com a tendência para engordar - ele já beirou os 100 quilos - e um pouco assustado com sua taxa de colesterol, Chico habituou-se a comer uma só vez por dia.

Quando precisa jantar, não almoça. Mas hoje almoçou e, por bondade sua, convidou-nos para almoçar com ele. Ele tem certa prevenção contra a imprensa não-espírita, ainda que receba com delicadeza todos os jornalistas que o procuram. Os amigos mais chegados dizem que ele se cuida assim porque já sofreu muito na mão -de repórteres sensacionalistas. Certa vez - eles contam -, dois repórteres invadiram a sua casa e, sob ameaças, obrigaram-no a posar em situações ridículas no banheiro e isso causou-lhe grande dor.

Chico mora numa casinha simples. Entra-se pela rua - através de uma porta de aço constantemente fechada - ou pelo Centro. Uma casa muito bem protegida. De um lado, as paredes do Abrigo das Velhinhas; de outro, as paredes do Centro. O que resta é protegido por um muro mais alto que o normal. Sem um contato anterior, ou sem que se convença seu secretário - o sr. Weaker - para que ele anuncie uma presença, é inútil .bater nos portões de aço. Ninguém os abrirá. Isso seria contrário ao estabelecido por ti Chico, e o que ti Chico estabelece é sempre bem cumprido.

A casa tem cozinha, sala, banheiro e dois quartos. Num, com duas camas de solteiro, dorme o ti Chico. No outro quando não há visitas - dorme um sobrinho que veio de Pedro Leopoldo para estudar. Sob a cama do ti Chico, um urinol - hábito antigo no interior de Minas. Nas paredes, um ou outro quadro, dos muitos que ele ganha de presente e que - como tudo o que ganha - ficarão com ele pouco tempo, o tempo necessário - às vezes minutos para que encontre alguém a quem dar.

- Se o Chico fosse ficar com tudo o que ganha de presente - diz Rolando Ramaciotti, um amigo chegado, precisaria de um armazém.

A sala, que serve de escritório, é o ambiente típico do intelectual desorganizado. Mesa, máquina de escrever, papéis em desordem, vidros de remédios, revistas estrangeiras, livros, jornais, uma infinidade de cartas, papeis com endereços, cartões, lápis. Numa estante arquivo, Chico guarda documentos e papéis que, um dia, sabe que vai precisar. Quando esse dia chega, ele procura - e não acha. Aconteceu isso hoje, quando ele queria mostrar umas fotos de materialização.

Na parede um gravador de alta precisão, com a capacidade para distribuir som durante três horas. Chico trabalha ouvindo música, e ;sua paixão pelo bom som é antiga. Além do gravador, tem uma vitrola e uma coleção variada de discos - de Ray Coniff a Mendelssohn, de Beethoven a Nelson Gonçalves.

Somos dez pessoas para o almoço e, enquanto ele não vem, Chico conversa.

- Na última vez que estive nos EUA, duas senhoras muito amigas discutiam entre si: "O nosso Chico é branco ou preto?" Aí chegaram num acordo: "Ele é pink!" (Cor-de-rosa).


-


O caso dos espíritos armados de revólver


Chico sabe contar seus casos, é amável para ouvir, e sobretudo diz suas coisas com bastante humor. Ri muito quando alguém comenta que, se Millôr Fernandes fosse defini-lo, diria assim: "Chico Xavier, eis um homem com presença de espírito!”

Ele está sem paletó e seu gesto mais constante é enfiar as mãos pelas mangas opostas da camisa e ficar acariciando os músculos do braço, ombro e o começo das costas. Os braços gordos, roliços, peludos se movimentam em gestos suaves. Os dedos são curtos; e o polegar, gordo, curvadinho e com a unha aparadinha, é o polegar mais indicado que eu já vi para ser exposto diante dos alunos de belas-artes em lição de desenho. Quem desenhar o polegar mais certinho, desenhou o polegar de Chico Xavier.

Caso sobre caso, risada sobre risada, Chico confirma um episódio de que eu tinha notícia. (A interpretação desse episódio, conforme seja feita por um espírita ou por um psiquiatra, principalmente tendo em vista seu eletroencefalograma, dá uma medida do "fenômeno Chico Xavier".)

O caso se deu numa fazenda do Ministério da Agricultura, em Pedro Leopoldo, onde ele era escriturário. Chico estava numa sala, com mais um colega, escrevendo normalmente, quando seu companheiro percebeu nele um rito de dor, contrações, palidez e desfalecimento. Correu em seu auxílio, chamou gente, logo foi providenciando um médico.

- Eu estava trabalhando, quando vi entrarem dois espíritos perturbados, que já vinham há vários dias me fazendo ameaças. Um deles estava armado de revólver e, depois de me dirigir vários desaforos, disse que ia me matar. Dito e feito: apertou o gatilho e a bala atingiu meu ombro, mas só de raspão, porque eu ainda tive tempo de desviar o corpo. Meu companheiro não viu nem ouviu nada, mas tanto o tiro foi real, que eu fiquei oito dias com o ombro dolorido.

Chico não deixa passar um caso desses sem um salzinho de humor:

- Você falou que veio um médico? Que médico, Zé Hamilton!... Chamaram foi um veterinário mesmo...

(Um psiquiatra, o dr. Alberto Lyra, interpretando esse episódio: Tendo em vista que seu eletroencefalograma revela um foco temporal, classicamente responsável por distúrbios sensoriais, com ocorrência de alucinações, vozes, visões, etc., podemos estar diante de um ataque epiléptico. Por outro processo psicológico, uma pessoa, contando repetidas vezes um episódio e obtendo para ele o consenso de seu meio, acaba acreditando que ele é de fato verdadeiro, e nunca mais duvidará de que assim não seja.)

(Um espiritualista, o mesmo dr. Alberto Lyra, ex-presidente do Instituto Paulista de Parapsicologia e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Teosofia, analisando o mesmo episódio: - O patológico não exclui, nem deforma, o fenômeno paranormal, ou sobrenatural. Eu acredito na existência dos espíritos, e pode muito bem tudo ter-se passado conforme o relato de Chico Xavier.)

Estamos há mais de duas horas conversando, quando Benedito, o cozinheiro, vem dizer que a mesa está posta.

O almoço é na cozinha e Chico se porta como autêntica dona de casa. Determina os lugares na mesa, explica os pratos e serve os convidados, um a um. Segundo amigos íntimos, Chico é ótimo cozinheiro, especialmente elogiado quando faz doces e gelatinas. A mesa é farta, mas sem requinte. Uma jovem senhora de Belo Horizonte pede clemência, diante da quantidade de macarrão e frango que recebeu:

- Mas Chico, eu estou de regime!
- Emmanuel me disse que hoje você pode variar...

Com toda a sua delicadeza e finura, Chico vai deixando claro - enquanto comemos a sobremesa - que tem coisas a fazer, nossa hora terminou. Antes das despedidas, mostra o jardinzinho ao lado da casa, conta a história de dois troncos de peroba que ficam na entrada.
- Um é o Dever, o outro a Disciplina - e brinca com um gatinho.

Nove horas da noite na Comunhão Espírita. Há um rebuliço de gente, forma-se uma aglomeração junto à cozinha e vem o anúncio:
- Primeira remessa das receitas!

Chico está ainda na salinha, psicografando sobre cada uma das seiscentas consultas, e, à medida que termina uma porção delas, o sr. Weaker - que já virou seu "Ica" - sai e as entrega a uma voluntária. No pátio, em meio do nervosismo e frases de admiração, as receitas vão sendo entregues. Fico atento mas nenhum dos dois nomes que encaminhei é chamado.

Peço para ver uma ou outra das receitas: a mesma letra larga e corrida da psicografia de Chico Xavier. Em algumas, apenas uma exortação moral, palavras doutrinárias de fé e esperança.  Noutras, uma receita inteira, com nome dos remédios e a forma de tomá-los. Os remédios, só homeopatia - e de "quinta dinamização", isto é, de tal maneira suavizados, que estão livres de qualquer contra-indicação. Mesmo que um doente troque de receita com outro, nenhum dos dois sofrerá nada. O efeito do remédio fica na dependência da força de consentimento - a fé - que cada um dispensa ao tomá-lo. E, já que a fé remove montanhas e que cerca de 70% das doenças têm forte componente psíquiátrico, é fato aceito que as prescrições de ti Chico "têm feito milagres". No entanto, apesar de ser de longe o mais importante médium brasileiro - o "médium-padrão" -, Chico sempre conseguiu evitar a fama de milagreiro:
- Minha tarefa é cura - diz ele.

Hoje, no almoço, perguntei-lhe como veria sua candidatura à Academia Brasileira de Letras:

- Que é isso,. meu amigo? Alguém já ouviu dizer que na Academia entram cavalos?...

Com segura obstinação, Chico Xavier sustenta que não é autor de nenhum dos seus 111 livros. É apenas o "cavalo"; o "cavaleiro" não se deixa ver. O sr. Sitg lbsen, chefe do Departamento de Livro Espírita da Edigraf, fez um cálculo da venda dos livros de Chico Xavier: perto de 300 000 exemplares, ou cerca de 2,1 milhões de cruzeiros por ano. Se recebesse os direitos de autor correspondentes a esse total, Chico teria uma renda entre 17 000 e 20 000 cruzeiros por mês - sem contar sua parte nas traduções para o exterior (perto de 700 000 volumes).

Sob vários ângulos, ele é o maior escritor nacional:
1.°) é o único que esgota uma edição quando o livro nem está impresso - seu livro "Mais Luz" vendeu os primeiros 10 000 exemplares em noventa dias, sob prévia encomenda;
2.°) é o único, dentre os escritores vivos, com mais de cem obras publicadas;
3.°) em número de edições e de obras publicadas (cerca de 3 milhões, até este mês), só tem - um competidor no Brasil, em toda a história: Jorge Amado. Vende o dobro de livros do que Érico Veríssimo, quase o dobro de José Mauro de Vasconcelos e pelo menos dez vezes mais que o maior de nossos poetas, Carlos Drummond de Andrade;
4.°) é o único, dentre os autores de sucesso, cujo acervo compreende os mais variados gêneros, da reportagem à poesia, de crônicas a obras infantis, de contos a romances históricos.

Mas os livros de Chico Xavier, por serem de autores tão incomuns, esbarram em problemas que um editor normal dificilmente aceitaria. Pelo espírito de Batuíra foi ditado, recentemente, um livro de mensagens: "Bênção de Paz". Chico deu os direitos de publicação ao Nosso Lar, um abrigo de crianças em São Bernardo do Campo, SP. Foi logo encomendada a um artista plástico Laerte Agnelli - uma bela capa para o livro. O desenho - rostos desesperados, em luta com seus conflitos, à espera das bênçãos de paz - ficou pronto e a gráfica pôs-se a montar o livro. Nesse espaço de tempo, porém, Chico Xavier mostra a capa ao autor, e este a renega:

- Nada disso! Obra minha precisa ser apresentada com otimismo e não com expressões perturbadas e sofredoras.
O espírito falou, está falado. Uma segunda capa foi pedida - otimista! -, mas nem tudo se perde. Com a "capa proibida" foram feitos cinqüenta exemplares, que agora estão à venda a 1 000 cruzeiros cada, como raridade.


Fonte: Instituto de Pesquisas Psíquicas Imagick - http://www.imagick.org.br




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