Web Toolbar by Wibiya Memórias do Padre Germano - Livros - Chico Xavier

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Memórias do Padre Germano

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Macili
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Fragmentos das Memórias do Padre Germano

Comunicações obtidas pelo médium sonânbulo do C.E. “A BoaNova”, da ex-vila de Grácia

Copiadas e Anotadas
Amália Domingo y Soler


(Amália Domingo y Soler - Memorias del Padre Germán)
1891


Apêndice: História psicografada por Francisco Cândido Xavier, em 1931, de autoria do mesmo Espírito - Padre Germano, extraída do "Reformador" de 1932, fascículos de 16 de fevereiro, 1 e 16 de março.
Tradução de Manuel J. Quintão






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Prefácio



Aos 29 de abril de 1880 comecei a publicar, no jornal espírita “A Luz do Porvir”, as Memórias do Padre Germano - uma série de comunicações que, sob a forma de novela, nem por isso deixam de instruir deleitando. O Espírito do Padre Germano foi relatando alguns episódios de sua última encarnação terrena, consagrada à consolação dos humildes e oprimidos, ao mesmo tempo que desmascarava os hipócritas e falsos religiosos da Igreja Romana.
Tal proceder, como era natural, lhe acarretou inúmeros dissabores, perseguições sem tréguas, cruéis insultos e ameaças de morte, ameaças que, por mais de uma vez, e por pouco se não converteram em amarissima realidade. Vítima dos superiores hierárquicos, assim viveu desterrado em obscura aldeia, ele que, pelo talento, bondade e predicados especiais, poderia ter conduzido a seguro porto, sem perigo de soçobro, a arca de São Pedro.
Mas, nem por viver em recanto ermo da Terra, obscura foi sua existência. Assim como as ocultas violetas exalam delicado perfume entre as heras que as sobrepujam, assim a religiosidade dessa alma exalou o sutil aroma do sentimento, e com tanta fragrância, que a essência embriagadora pôde ser aspirada em muitos lugares daTerra.
Muitos foram os potentados que, aterrados pela idéia de crimes enormes, correram pressurosos à sua presença, prostrando-se humildes ante o humilde sacerdote, para que fosse intermediário entre eles e Deus.
O Padre Germano arrebanhou muitas ovelhas desgarradas, guiando-as pela senda estreita da verdadeira religião, que outra não é senão a do bem pelo bem, e amando - não só o bom, que por excepcionais virtudes merece ser amado ternamente, como também o delinquente - enfermo da alma que, em gravíssimo estado, só com amor se pode curar.
A missão desse Padre em sua última encarnação foi, de fato, a mais bela que porventura possa ter o homem na Terra; e visto como, ao deixar o invólucro carnal, o Espírito prossegue no espaço com os mesmos sentimentos humanos, pôde ele sentir, liberto dos seus inimigos, a mesma necessidade de amar e instruir o próximo, buscando todos os meios de completar tão nobilíssimos desejos.
À espera de propicia ocasião, encontrou, finalmente, um médium falante puramente inconsciente, ao qual dedicava, contudo, esse achado: - importava que tal médium tivesse um escrevente capaz de sentir, compreender e apreciar o que o médium por si dissesse.
A isso me prestei eu, de boa-vontade, e no intuito de propagar o Espiritismo, trabalhamos os três na redação destas “Memórias”, até 10 de janeiro de 1884.
Não guardam elas perfeita ordem com relação à existência do Padre, sendo que, tão depressa relatam episódios verdadeiramente dramáticos da sua juventude, como deploram o isolamento da sua velhice; em tudo, porém, que diz o Padre Germano, há tantos sentimentos, religiosidade e amor a Deus; admiração tão profunda das leis eternas e tão grande adoração à Natureza, que, lendo estes fragmentos, a criatura mais atribulada se consola, o mais céptico espírito conjetura, comove-se o maior criminoso, cada qual procurando Deus a seu modo, convencido de que Ele existe na imensidade dos céus.
Um dos fundadores de “A Luz do Porvir”, o editor João Torrents, teve a feliz idéia de reunir em volumes as Memórias do Padre Germano, ás quais adicionei algumas comunicações do mesmo Espírito, por ter encontrado nelas imensos tesouros de Amor e de Esperança - esperança e amor que são frutos sazonados da verdadeira religiosidade por ele possuída de muitos séculos. Sim, porque para sentir e amar como ele, conhecendo ao mesmo tempo tão profundamente as misérias da Humanidade é preciso haver lutado com a fonte nunca estanque das paixões, com a tendência dos vícios, com o estímulo indômito das vaidades mundanas.
As grandes e inveteradas virtudes, tanto quanto os múltiplos conhecimentos científicos, não se improvisam porque são a obra paciente dos séculos.
E sejam estas linhas - humilde prólogo às Memórias do Padre Germano - as heras que ocultam o ramo de violetas, cujo delicadíssimo perfume há de ser aspirado com prazer pelos sedentos de justiça e famintos de amor e verdade. Grácia, 25 de fevereiro de 1900.






Amália Domingo Sóler



Macili
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1

O remorso



Qual não foi meu prazer e com que beatífico enlevo celebrei, pela primeira vez, o sacrifício da missa!
Nasci para a vida religiosa, contemplativa e calma.
Quão grato me era ensinar a doutrina às criancinhas!
E como me deleitava ouvir-lhes as vozes infantis, desafinadas umas, arrastadas outras, débeis ou vibrantes, todas, porém, agradáveis porque eram puras como suas almas inocentes.
Oh! as tardes, as tardes da minha aldeia, recordo-as sempre! Quanta ternura, quanta poesia naqueles momentos em que deixava o querido breviário e, acompanhado do fiel Sultão, me encaminhava ao cemitério, a fim de, aos pés da cruz de pedra, rogar pelas almas dos fiéis que ali dormiam!
Os pequenos seguiam-me a distância, esperando-me à entrada da casa dos mortos; e quando, terminada a oração, dali saía, da mansão da verdade, recordando as palavras de Jesus, dizia: “Vinde a mim as criancinhas!” Um bando de rapazitos rodeava-me então, carinhosamente, a pedir que lhes contasse histórias. Sentava-me à sombra de velha oliveira, Sultão estendido a meus pés. Os meninos começavam por entreter-se, puxando-lhe as orelhas, e o velho companheiro sofria, resignado, aquelas demonstrações de infantil agrado e alegre travessura. Quanto a mim, deixava-os brincar, comprazendo-me com a convivência daquelas inocentes criaturas, que me encaravam com ingênua admiração, dizendo-se uns aos outros:
- Brinquemos à ufa com o Sultão, que o Padre não ralha... E o pobre do meu cão deixava-se arrastar por sobre a relva, merecendo finalmente, em troca da condescendência, que todos os pequenos lhe dessem um pouco da merenda. Depois, restabelecida a calma, sentavam-se todos em torno, a escutarem atentos o caso milagroso que eu lhes contava.
Sultão era sempre o primeiro a dar sinal de partida. De pé, inquietava a pequenada com saltos e correrias, e assim voltávamos aos lares pacatos. Dias, meses de paz assim decorreram; de paz e de amor, sem que me lembrasse que havia crimes no mundo.
Morto, porém, o Padre João, tive de substituí-lo no curado e novos encargos vieram perturbar o sono das minhas noites e o sossego dos meus dias.
Jamais indaguei de mim mesmo o motivo por que sempre me recusava a ouvir em confissão os pecados de outrem.
Parecia-me, contudo, carga demasiado pesada o guardar segredos alheios. Minha alma, ingênua e franca, acabrunhava-se ao peso das próprias culpas, e temia de aumentá-las com aquela sobrecarga. A morte do Padre João veio obrigar-me a tomar assento no tribunal da penitência, ou antes, por melhor dizer, da consciência humana.
Então... a vida horrorizou-me!
Quantas histórias tristes!... Quantos erros!... Quantos crimes!... Quantas iniqüidades!...
Uma noite... - jamais a olvidarei - preparava-me para repousar, quando Sultão se levantou inquieto, olhou-me atento e, firmando as patas dianteiras na borda do leito, parecia dizer-me no seu olhar inteligente: “Não te deites que aí vem gente.” Passados cinco minutos, ouvi o tropel de um cavalo e, dentro em pouco, já o velho Miguel vinha dizer que um senhor desejava falar-me.
Fui-lhe ao encontro: Sultão farejou-o sem denotar o mínimo contentamento, conchegando-se a mim em atitude defensiva. Isto posto, examinei o visitante. Era um homem de meia-idade, olhar sombrio e triste semblante, que me disse:
  • Padre, estamos sós?
  • Sim. Que quereis?
  • Quero confessar-me.
  • E por que me procurais e não a Deus?
Deus está bem longe de nós e eu necessito de uma voz mais próxima.
  • E vossa consciência não vos fala?
  • Precisamente por lhe ouvir a voz é que vos venho procurar. Vejo, agora, que me não enganaram quando me disseram que éreis inimigo da confissão.
  • É verdade: o horror da vida me acabrunha e não me apraz ouvir outras confissões, salvo das crianças, cujos pecados fazem sorrir os anjos.
  • Padre, ouvi-me, pois é obra de caridade dar conselhos a quem o pede.
  • Falai então, e que Deus nos inspire.
  • Prestai-me toda a atenção. Faz alguns meses, junto aos muros do cemitério da cidade de D..., foi encontrado o cadáver de um homem com o crânio espedaçado. Pesquisas fizeram-se, em vão, para encontrar o assassino; ultimamente, porém, apresentou-se ao Tribunal de Justiça um homem que se confessou autor do crime. O juiz da causa sou eu e a lei o condena à pena última, atento à sua confissão. Não posso, contudo, condená-lo...
  • Por quê?
  • Porque sei que é inocente.
  • Como, pois, se ele se confessa culpado?
  • Posso jurar e juro, não foi ele o assassino.
  • Como o sabeis?
  • Simplesmente porque o assassino... fui eu.
  • Vós?
  • Sim, Padre; é uma história longa e triste. Direi, apenas, que me vinguei por minhas mãos, dependendo do meu segredo a honra dos meus filhos; mas a consciência não pode, agora, transigir com a sentença capital de um homem por ela reconhecido inocente.
  • Acaso sofrerá o desgraçado de alienação mental?
  • Não; tem um cérebro perfeito. Apelei mesmo para o recurso escapatória da loucura, mas a ciência médica desmentiu-me.
  • Não tenhais, portanto, remorso em condená-lo, pois os remorsos de outro crime o inspiram nessa resolução. Ninguém oferece a cabeça à justiça, sem que tenha sido um assassino. Ide tranqüilo desafrontar a justiça humana, porque os remorsos desse infeliz se encarregarão de executar a justiça divina. Conversarei com esse homem inditoso, dir-lhe-ei, para tranqüilidade vossa, o que ora me confiastes. E quanto a vós, não torneis a esquecer o quinto mandamento da lei de Deus, que diz: - Não matarás. ***
Fui ouvir o infeliz; meus pressentimentos não me enganavam; e quando, na suprema hora, lhe disse: "Fala, que Deus te ouve", ele, banhado em lágrimas, exclamou:
  • Padre, como é triste a existência do criminoso! Dez anos há que matei uma pobre moça e há tantos sua sombra me persegue! Ainda agora, aqui está ela entre nós dois! Casei-me, na persuasão de que, vivendo acompanhado, perderia o pavor que me definhava lentamente, mas, quando acarinhava minha esposa, eis que a outra se interpunha entre nós, a ocultar com o semblante lívido o semblante da minha companheira! Ao ter esta o primeiro filho, afigurava-se-me ser a outra a parturiente, pois era aquela, ainda, que mo apresentava. Viajei, lancei-me a todos os vícios, ou me arrependia e passava o tempo nas igrejas; mas, na tasca ou na igreja, era sempre ela que eu via, ora a meu lado, ora velando o rosto das imagens. Ela e sempre ela! Não sei por que não tive a coragem do suicídio, e assim tenho vivido, até que, não se encontrando o assassino desse pobre homem, dei graças a Deus, visto como poderia morrer, inculcando-me autor do crime.
  • Mas, por que não confessastes o crime anterior?
  • Porque sobre ele não há provas convincentes. Tão habilmente pude ocultá-lo, que não ficou o mínimo vestígio. O que os homens não viram, entretanto, vi-o eu... Ela aqui está, parecendo olhar-me com menos rigor. Vede-a vós, Padre? Não? Ah! que desejo tenho de morrer para não mais vê-la...
Ao subir ao patíbulo, acrescentou:
  • Lá está ela no lugar do carrasco... Padre, rogai a Deus para que não mais a veja após a morte, se é que os mortos se vêem na eternidade...
  • Para sossego do juiz homicida, repeti-lhe quanto dissera o outro Caim, e, ao terminar a exposição, ouvi-lhe estas palavras:
  • Padre, que vale a justiça humana comparada à divina?! Para a sociedade, o assassino desse homem está vingado, o réu descansa, talvez, na eternidade... Mas eu, meu Padre, quando e como descansarei?...
***
   Um ano depois, o juiz entrava para um manicômio, do qual não mais sairia, e eu... — depositário de tantos segredos, testemunha moral de tantos crimes, confidente acabrunhado de tamanhas iniqüidades — vivo opresso ao peso dos pecados humanos.
   Ó tranqüilas tardes da minha aldeia! onde estais? Minhas orações já não ressoam junto à cruz de pedra... E, onde aqueles meninos que brincavam com Sultão? Este morreu, também ele; os meninos cresceram... fizeram-se homens e, quem sabe, alguns deles criminosos...
Dizem-me bom; muitos pecadores vêm contar-me suas faltas e eu vejo que o remorso é o único inferno do homem.
Senhor! inspira-me, guia-me no caminho do bem e, já que me entristeço das culpas alheias, dá que não desvaire, recordando as minhas...
   Que homem haverá neste mundo que não tenha remorso?


Macili
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2

As três confissões




Querido manuscrito, fiel depositário dos íntimos segredos de minha alma, depois de Deus, foste tu o meu fiel confessor o espelho do meu ser, O mundo não me conhece; tu, sim; e eis que a ti me apresento tal como sou, com as minhas fraquezas e remorsos. Para contigo, sou homem, para a sociedade, sou sacerdote.

Muitos me julgam impecável! Deus meu, por que me pedirão o impossível?

Por que exigir do ungido do Senhor a força do gigante, quando não passa de pigmeu igual aos seus semelhantes?

Como são absurdas as leis sociais! Mas eu o ignorava e passei anos e anos contente da sorte. Celebrar missa, doutrinar crianças, passear com o dedicado e velho Sultão, embevecido em piedosas leituras, era todo o meu encanto.

Uma só nuvem de tristeza me toldava o pensamento, no desempenho do sagrado ministério; uma só coisa me acabrunhava e enlouquecia: era quando havia de receber a confissão dos pecadores. Quando me sentava ao confessionário, olhar angustioso a fitar o rosto dos penitentes, ouvindo-lhes as culpas e segredos, terríveis por vezes, então, sofria mil mortes por segundo. Dali saía como a fugir de mim mesmo, corria como louco e, na solidão dos campos, rojava-me por terra, pedindo a Deus me extinguisse a memória. Às vezes, essa prece era ouvida e calmo sono de mim se apoderava, até que Sultão, encarregado de me despertar, suavemente me puxava pela batina.

E eu despertava abatido, como se tivesse padecido febre intensa; recordava, confusamente, mil fatos estranhos e voltava a casa onde o velho Miguel, inquieto, me aguardava.

Jamais o tumulto das grandes cidades me fascinou; preferi sempre a placidez da minha aldeia. Recusei viver na grande cidade de N..., mas, ainda assim, como se tal houvera de ser a minha expiação, seus principais habitantes buscavam o cura aldeão e mulheres de alta linhagem, e homens de posição social eminente vinham à igreja humilde, para que eu lhes ministrasse a bênção nupcial. Eu olhava esses casais juvenis, sorridentes de ventura, sem dar de mim nem perguntar-me por que sentia agudas dores de cabeça e de coração; mas o certo é que, quando eles se retiravam, ficando eu só, no templo, afigurava-se-me ser este um sepulcro e meu ser um cadáver nele enterrado.

Cuidadosamente, abstinha-me de comunicar estas impressões a alguém, para que o vulgo e os colegas invejosos não dissessem que o diabo me tentava, sabendo eu que Satanás não existia.

Educado no mais rigoroso ascetismo, sem ter conhecido mãe, que falecera ao dar-me à luz, filho do mistério, cresci no seio de uma comunidade religiosa como flor sem orvalho, como pássaro sem asas e obrigado a obedecer cegamente, sem direito a réplicas. Disseram-me enfim:

- Serás ministro de Deus e fugirás da mulher, porque Satanás dela se vale para perder o homem...

Entreguei-me à leitura, li muito e compreendi, posto que tarde, que o sacrifício do sacerdote católico é contrário às leis naturais. Compreendi, mais, que tudo quanto violenta as leis de Deus é absurdo; mas... calei-me. Invejei os reformadores e não me atrevi a segui-los; quis bem cumprir a delicada missão e sacrifiquei-me nas aras da instituição a que pertencia. No dia em que completei 35 anos, os meninos da aldeia invadiram-me o jardim e todos, à porfia, me entregaram ramalhetes de flores, frutos, leite, mel e manteiga. Quando mais contente me encontrava, quando entre esses filhos adotivos suspirava intimamente pela família que não pudera constituir, eis que me entregam uma carta, vinda da cidade de N... Nessa carta, a diretora de um colégio de meninas nobres me anunciava sua visita na manhã seguinte, acompanhada de quinze educandas que deveriam receber meus dons espirituais e acercarem-se da mesa do Senhor, a fim de participarem do festim eucarístico.

Sem saber por que, o coração pulsou-me precipitado; algo de triste se me desenhou na retina, e, posto que procurando dominar-me, passei melancólico o resto do dia.

Na manhã seguinte, extensa fila de carruagens rodeou o templo modesto da minha aldeia, enquanto formosas raparigas de 12 a 14 anos, qual bando de pombas que colhessem vôo, entravam pela nave risonha da igreja cristã, cujos altares se adornavam de flores perfumosas, pois era justo que se confundissem as rosas do prado com as brancas açucenas do jardim da vida. Gentis raparigas, sorrisos do mundo, esperanças do homem, para que viestes à minha aldeia?

Olhei-as a todas, mas só vi uma: era pálida, negros cabelos, andar flexuoso e como o lírio dos vales.

Ao prosternar-se no confessionário, o perfume dos brancos jasmins que lhe engrinaldavam a fronte penetrou-me o cérebro e tonteou-me.

Ela fitou-me fixamente, e, com voz plangente, disse:
  • Padre, quando uma pessoa se confessa faz-se-lhe preciso dizer tudo que pensa ao confessor?
  • Quando o pensamento é mau, sim; quando bom, não.
  • E amar é mau?
A tal pergunta, não soube de pronto responder-lhe; fitei-a e não sei o que li no seu olhar; com a mão no coração para conter-lhe as pulsações, disse-lhe, então, com gravidade:
  • Amar é bom, mas nem sempre: deve-se adorar a Deus, deve-se amar os pais e o próximo; mas há no mundo outras paixões tu não compreendes e são, todavia, pecaminosas.
  • Pois eu amo a Deus, a meus pais e a meus irmãos, mas amo também a um homem...
  • És ainda muito jovem para amar a qualquer homem...
  • Sei que para o coração não há idades e um ano faz, já, que amo esse homem.
Mudo, em vez de a interrogar, eu não queria saber o nome daquele homem; ela, porém, continuou:
Um ano faz que se casou minha irmã Adélia, desejando a bênção de um santo, e fostes vós que lha destes.
  • Eu
  • Sim, tendes fama de justo; pois bem, acompanhei minha irmã e, desde esse dia...
  • Que houve?
  • Penso em vós, e, para que tornasse a vos ver e vos falar, fui das que mais se empenharam por este ato, a fim de vos perguntar se é pecado pensar em vós.
Que teria passado então comigo? Não sei. Inutilmente cerrei as pálpebras; aquela menina feiticeira, aquela jovem apaixonada, cheia de ingenuidade e de encantos, era a síntese de um mundo de felicidade, todavia impossível para mim.
Sua voz acariciava-me, falava-me à alma, porém tive forças para conter o sentimento, dizendo-lhe:
  • Minha filha, não podes amar a um sacerdote, porque este é um homem que não pertence ao mundo; roga a Deus te livre dessa alucinação, pede-lhe que te perdoe como eu mesmo te perdôo.
E cego, vergado ao peso de emoções desencontradas, saí do confessionário, pedindo a Deus não mais vê-la, para não sofrer. Mas... ai de mim! era só ela a quem eu via.

A menina pálida dos cabelos negros ficou-me gravada na mente, e durante muito tempo os jasmins da sua fronte perturbaram com o seu perfume o meu sono e as minhas orações. Oito anos mais tarde, apressado cavaleiro chegava à minha aldeia, pedia para ver-me e dizia: - “Vinde, Padre, pois minha esposa está moribunda e não quer outro confessor senão vós.” Segui-o, e, sem saber por que, pensava na menina pálida dos cabelos negros. Chegados a um palácio, entrei em regia alcova, na qual se erguia luxuoso leito envolto em amplas cortinas de púrpura; nele arquejava, quase exânime, uma mulher.

Uma vez a sós com ela, disse-me:
  • Olhai-me bem! Não me reconheceis?
Meu coração adivinhara, se bem que nunca houvesse esquecido; mas, ainda assim, tive ânimo para dizer-lhe:
  • Pois que os homens nada valem, será Deus quem vos há de reconhecer em seu reino.
Pois eu - replicou - não me esqueci; faz hoje oito anos que vos declarei o meu amor, e, como dizem que vou expirar, quis dizer-vos ainda uma vez que, sobre tudo e todos, na Terra, eu vos amei.

Fitei-a por momentos, contemplei aqueles olhos radiantes de paixão e, abençoando-a em pensamento, fiz com a destra uma cruz, como querendo pôr algo entre nós.

Depois, retirei-me daquela casa mortuária, fugindo de mim mesmo e voltei para a aldeia, onde deveria curtir em silêncio aquele amor, que não tinha o direito de fruir.

Dois anos depois, a peste assolou a vizinha cidade e muitas famílias procuraram em minha aldeia uns ares mais salubres.

Trouxeram-lhe, porém, a epidemia; e o campanário tocou a rebate sua voz melancólica, como para dizer aos campônios que a morte ali estava entre eles. Não obstante, novos emigrantes vieram e entre eles o duque de P..., com a esposa e numerosa criadagem. No dia seguinte, dentro de poucas horas, morria o Duque, chegando eu tardiamente para prestar-lhe os socorros da religião. Então, chorando silenciosamente, veio a mim uma mulher! E eu retrocedi estupefato, porque essa mulher era ela - a menina pálida dos cabelos negros que eu supunha morta há dois anos!

Ela tudo compreendeu e, com voz triste, falou: - “Deus é infinitamente bom; creio que desta vez morrerei mesmo, seguirei na campa o meu marido. Fostes vós quem recebeu minha primeira confissão e talvez tenhais de receber também a última; um segredo, apenas, guardei em toda a vida; um pecado só hei cometido, se é que amar seja pecado.”

Os indícios da febre contagiosa já se lhe estampavam no pálido semblante e eu parti como louco, mendigando à Ciência a vida da mulher que tanto me havia amado e a quem eu tanto amara; a Ciência, porém (graças a Deus), não ouviu a súplica imprudente. A jovem Duquesa daí a dois dias expirava, dizendo-me: - “Quero que me enterrem aqui nesta aldeia e neste cemitério, para estar junto de vós, morta, já que o não pude estar em vida.”

Que mistérios encerram o coração humano!
Eu, ao cobrir-lhe de terra a sepultura, julguei-me quase feliz...
Egoísta que é o homem!


Quando a pálida menina dos cabelos negros, coroada de brancos jasmins, cheia de inocência e de amor, me ofertara a taça de vida, recusei o néctar da felicidade, abandonei-a ao homem que deveria conduzi-la ao altar; quando a dama opulenta, no seio da família, me afirmou que morreria, amando-me, deixei-a entregue aos seus, àqueles que poderiam receber-lhe o último suspiro e por estar ao seu cadáver a homenagem ostentosa das pompas mundanas; mas, quando aquela mulher rodeada de estranhos que lhe temiam o contágio; quando essa mulher, digo, me pediu sete palmos de terra da minha aldeia, vendo eu que ninguém poderia arrebatar-me suas cinzas - uma vez que por escrito declarara não fosse seu corpo jamais exumado da cova que pretendia - oh! então... então recebi suas últimas palavras com transportes de arrebatamento.

Foi sua primeira confissão dizer que me amava e foi sua última confissão repetir que esse amor constituíra todo o culto da sua vida.

Nem um instante me separei dos seus despojos, e como entre os meus aldeães aterrados nenhum se prestasse a substituir o coveiro, também dizimado nessa mortandade espantosa, fomos, eu e Miguel, abrir a cova e nela depositar o cadáver da pálida mulher.

Miguel retirou-se, Sultão deitou-se a meus pés, e então entreguei o coração às venturas do amor.

Porque, amando um cadáver, já não transgredia os sagrados mandamentos.

E chorei a juventude; lamentei a fraqueza de ter aceito e feito votos, em vez de me filiar à Igreja Luterana, que me permitiria casar com aquela menina pálida de negros cabelos, constituindo grata família aos olhos do Senhor. Algumas horas, apenas, me fizeram compreender o que havia vinte anos procurava decifrar, e suspirei por uma dita que raro se encontra na Terra.

Pois eu que soubera tantos segredos; eu que vira tantas mulheres desmascaradas confiarem-me suas infelicidades e desvios; eu que vira tanta inconstância, apreciava no seu justo valor o imenso amor daquela mulher que me viu quatro vezes e só viveu por mim, por meu amor!

Ah! com que prazer lhe cobri de flores a sepultura!
E com que deleite as cultivava!
O coração do homem é sempre criança!
Um dia, um só que fosse, não deixava de lá ir ao cemitério!
E era este todo o encanto da minha vida!


Invernos muitos, passaram; a neve cobriu aquele túmulo, como cobriu de flocos brancos a minha cabeça; mas o coração, esse tive-o sempre jovem!

O calor desse puríssimo sentimento manteve nele, sempre, o fogo santo do maior dos amores!

Mãe, irmã, esposa e filhos, tudo sintetizei naquele ser, pois é justo retribuir de sobra às dádivas sacrossantas do amor.

Se alguma coisa progredi neste mundo, a ela o devo, à menina pálida dos cabelos negros!

Foi junto da sua campa que compreendi o valor da Reforma Luterana, e regando as plantas que lhe davam sombra foi que se me dissiparam as sombras da imaginação.

Conheci, mais, quão pequena era a igreja dos homens e grande o templo universal de Deus.

Amor! sentimento poderoso, força criadora... sois a alma da vida, porque vindes de Deus!

Sacerdotes sem família são como árvores secas, e Deus não quer a esterilidade do sacrifício e sim o amor universal.

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3


O embuçado

Senhor! Senhor! Que grande culpado fui na minha precedente existência! Certo estou de ter vivido ontem e de que viverei amanhã, pois de outro modo não posso explicar a constante contrariedade do meu viver.

Mas Deus é bom e justo e não quer a perda da mais ínfima das suas ovelhas; entretanto, o espírito se cansa, como cansa o meu, de tanto sofrer.

Que fiz no mundo senão padecer? Vindo à Terra, minha pobre mãe morreu ou, quem sabe, obrigaram-na a emudecer.

Quem me amamentou? Ignoro e nem mesmo recordo que mulher alguma me embalasse o berço.
Meus primeiros sorrisos a ninguém fizeram sorrir.

Hábitos negros, eis o que vi ao redor do leito, ao despertar.

E nem uma carícia, uma palavra de ternura ecoava-me aos ouvidos; por condescendência única, espaçoso jardim e os pais do meu fiel Sultão (formosíssimos Terra-Novas), meus exclusivos companheiros.

Às tardes de Verão, pela sesta, meu maior prazer era dormir, cabeça pousada na paciente Zoa, que ali permanecia imóvel por todo o tempo do meu repouso.

E foram essas todas as alegrias da minha infância. Se ninguém me castigou, também ninguém jamais me disse: - “Estou satisfeito contigo.”

A pobre Zoa, somente, lambia-me às mãos e apenas Leão puxavame pelas mangas do fato e disparava a correr, como que me convidando a fazê-lo também. E corríamos, e então... eu sentia nas veias o calor da vida.

Ao deixar essa reclusão, ninguém derramou uma lágrima. Apenas me disseram que cumprisse meu dever. Como lembrança da infância e juventude, deram-me Sultão, pequenino ainda.

Foi assim que se me abriu, menos triste, uma nova era, melancólica embora. Justiceiro, fui a dedo apontado por meus colegas como elemento perturbador, e, por isso, insularam-me numa aldeia onde passei mais de metade da existência.

Mas, quando a calma se ia apoderando de mim; quando a mais doce nostalgia me estarrecia em mística meditação; quando minha alma gozava algumas horas de enlevo moral, eis que da cidade próxima me chamavam, ora para abençoar um casamento ora para confessar um moribundo, ora para assistir a agonia de um condenado.

Assim, contrariado sempre, jamais pude conceber e realizar um plano, por insignificante que fosse.
Entretanto, fui um ser inofensivo que amou as crianças, que consolou os desgraçados, que cumpriu fielmente os votos contraídos.

Por que, pois, essa luta surda? Por que essa contínua contrariedade?

Se meu espírito não tem o direito de individualizar-se, além desta existência, por que Deus, amor imenso (que no todo é amor), me destinou a esta horrível soledade?

Não, não; meu próprio tormento me diz que já vivi alhures.

Não reconhecer meu passado fora negar o meu Deus!

E eu não posso negar a vida! Quanto, porém, tenho sofrido!

Uma única vez pude fazer minha vontade, desenvolver a energia do meu espírito, e por sinal que fui bem feliz então.

Senhor! Senhor! as forças de minha alma não podem inutilizar-se no curto prazo de uma existência terrena. Certo, viverei de futuro, voltarei à Terra e serei dono da minha vontade.

E eu te proclamarei, Senhor, não entre homens mais ou menos adstritos a formalismos vãos!

Proclamarei tua glória nas academias, nos liceus, nas universidades, em todos os templos do saber, em todos os laboratórios da Ciência; serei um dos teus sacerdotes, dos teus apóstolos, sem fazer, contudo, outros votos que não os de seguir a lei do teu Evangelho.

E amarei, porque tu nos ensinas a amar; constituirei uma família, porque nos dizes: - “crescei e multiplicai-vos”; vestirei os órfãos, assim como vestes os lírios dos vales; agasalharei os peregrinos, como agasalhas os pássaros na fronde das árvores.

Difundirei a luz da tua verdade, como difundes o calor, espargindo a vida com teus múltiplos sóis na infinidade dos teus universos! Oh! sim, eu viverei, porque, se não vivesse amanhã, negaria tua justiça, Senhor!

Não posso ser um simples instrumento da vontade de outrem.

Para que, a ser assim, me dotarias de razão e livre-arbítrio?

Se tudo preenche seu fim na Criação, minha iniciativa deve preencher um fim; mas, a verdade é que nunca me contentam as leis da Terra.

Ao confessar criminosos de morte, quantas vezes me assomava o desejo de arrebatá-los para minha aldeia, repartindo com eles o meu escasso alimento!

Quantos monomaníacos! Quantos espíritos enfermiços me confiaram secretos pensamentos, tendo eu ocasião de ver que, as mais das vezes, havia neles mais ignorância que maldade.

Uma noite, já deitado, Sultão junto do leito, como de costume, enquanto meio desperto, meio adormecido, eu pensava na querida morta, na menina pálida dos cabelos negros, o cão começa a uivar surdamente e, patas apoiadas no travesseiro, parecia dizer-me, com os olhos inteligentes, que escutasse.

Prestos atenção e nada ouço: pego Sultão pela orelha e por minha vez lhe falo: - “Tu sonhas, companheiro.” Mas, neste comenos, ouço longínquo rumor que se aproxima, e dentro em pouco o galopar de muitos cavalos abalava o casario da aldeia.

Fortes pancadas na reitoria e já Miguel entrava apressadamente, falando atarantado: - “Senhor, vêm prender-vos. Um capitão de gendarmes quer falar-vos e vem acompanhado de muita gente.”
  • Que entre, respondi-lhe; e daí a pouco o capitão, de rude porém franco semblante, dizia:
  • Desculpai-me Vossa Reverendíssima o virmos em hora tão imprópria perturbar o vosso sono; mas, tendo-se evadido, há dias um preso que deveria seguir a cumprir sentença em Toulon, e não tendo surtido efeito outras diligências, vimos ver se acaso o encontramos no recôncavo destas montanhas. E como estamos informados de que Vossa Reverendíssima tem um cã cujo apurado faro nada escapa, venho pedir que mo empresteis, a ver se ele me põe na pista do fugitivo. Disseram-me, também, que Vossa Reverendíssima tem o cão em grande estima, mas pode ficar certo de que nada sucederá de mal ao bravo animal.
Olhei fixamente para Sultão e convidei o comandante a repousar umas duas horas em meu leito, até que o dia clareasse.
  • Muito antes que saia o Sol - acrescentei -, eu me incumbo de o despertar.
  • Tenho ordem de não perder um minuto e não o perderei.
Eu, que não desejava fosse descoberto o desgraçado fugitivo, olhava insistentemente para Sultão, o qual, por fim, pareceu compreender meu pensamento. Movendo a cabeça em sinal de assentimento, foi ele mesmo buscar a coleira que lhe servia às grandes jornadas. Ao afivelar-lhe, o capitão olhava-o enternecido, dizendo: - “Que formoso animal!”

Momentos depois, partia a comitiva, enquanto eu me ficava rogando a Deus para que o fiel Sultão não descobrisse rastro algum.

Na tarde seguinte, mal-humorado, voltava o capitão, dizendo:

Trago-vos más notícias: não só não encontramos o bandido, como também perdemos o vosso cão.
Em momentos que param para descansar, ele desapareceu, o que aliás muito lastimo, porque na verdade é um animal que não tem preço. Inteligente que é! Há duas horas poderíamos aqui estar, se não houvéssemos retrocedido para procurá-lo.

Depois de cear comigo, o capitão lá se foi prestar contas da diligência, enquanto eu, sem saber por que, não me inquietava com a ausência de Sultão.

Deixando entreaberta a porta do jardim, subi ao quarto e pus-me a ler, até que às 9 horas se me apresentou ele.

Tirei-lhe a coleira enquanto mil carícias me fazia, e depois, apoiando a cabeça em meus joelhos, entrou a uivar, puxando-me pelo hábito. Depois, ia até à porta e voltava a fitar-me; deitava-se no chão, cerrava os olhos como morto, levantava-se e novamente me fitava, como querendo dizer que o seguisse.

Pensando, então, no criminoso fugitivo, disse de mim para mim: - “Seja o que for e como for, levarei algumas provisões.”

Tomei de um pão, uma cabaça de vinho e outra com água aromatizada, uma lanterna que tive a precaução de ocultar sob a capa e, de manso, sem fazer o mais leve ruído, saí pela porta do jardim, que deixei fechada.

Miguel, esse, dormia profundamente.

Uma vez no campo, todo o meu ser vibrou de especial emoção e detive-me alguns momentos a render graças a Deus, por me conceder aqueles instantes de completa liberdade.

Não só me sentia mais ágil, como até enxergava melhor.

A noite era de Primavera, formosa; as múltiplas estrelas eram quais exércitos de sóis que celebrassem no céu a festa da luz, tão brilhantes os eflúvios luminosos que enviavam a Terra.
Dir-se-ia que a Natureza se associava comigo na prática de uma boa obra.

Tudo sorria e minha alma sorria também. Sultão, contudo, mostrava-se impaciente e perturbava a minha meditação puxando-me pela capa. Acompanhei-o e não tardou desaparecêssemos em fundos barrancos perto do cemitério. O cão guiava-me, tendo à boca a ponta da bengala, uma vez que a luz da lanterna parecia extinguir-se na escuridade daquelas brenhas. Enveredamos por larga fenda, ao fundo da qual havia uma pirâmide de galhos secos, formando um parapeito coberto de folhagens, e atrás dele se me deparou um homem, morto na aparência, tal a sua insensibilidade.
Quase nu, hirto, gelado, tinha no entanto um aspecto horroroso.

Meu primeiro cuidado foi depor no solo a lanterna, o pão, o vinho e a água; depois, com grande esforço, consegui tirá-lo de detrás da pirâmide, arrastando-o para o meio da furna.

Uma vez esticado o corpo, cabeça descansada sobre um montão de folhas, Sultão começou a lamber o peito do desgraçado, enquanto eu, embebendo o lenço na água aromática, aplicava-lhe às fontes, molhava-lhe o rosto, e a destra, sobre o coração, em breve sentia débeis e demorados suspiros. Sultão, também ele, não poupava meios de o chamar a si. Assim que, lambia-lhe as mãos, cheirava-lhe o corpo, roçava pela dele a sua cabeça, até que o moribundo abriu os olhos para de novo cerrá-los, suspirando angustiosamente.

Assentado então, tomei-lhe a cabeça nos meus joelhos, suavemente, rogando ao Senhor a ressurreição do pecador.

Deus ouviu-me: o enfermo abriu os olhos e, vendo-se afagado, olhou-me com profundo assombro, bem como a Sultão, que lhe aquecia os pés com o calor do próprio corpo.

Cheguei-lhe aos lábios a cabaça de vinho, dizendo-lhe: - “Bebe.”

Ele não se fez rogado: bebeu avidamente, fechando de novo os olhos como para coordenar as ideias.

Depois, procurou erguer-se, no que o auxiliei, e passando-lhe o braço à cintura, com a cabeça a descansar-me no ombro, ofereci-lhe um pedaço de pão, dizendo:
  • Faze um esforço e come.
Fê-lo febrilmente e, havendo outra vez bebido, perguntou:
Quem és?
  • Um homem que te ama muito.
  • Que me ama muito! Como! se ninguém jamais me amou?
  • Mas amo-te eu e tanto que pedi a Deus não te encontrassem os teus perseguidores, pois és decerto aquele que deveria ser recolhido ao presídio de Toulon.
A estas palavras, o fugitivo, possuído de violento tremor, olhoume fixa, desconfiadamente, e com voz roufenha acrescentou:

- Não me enganes que caro te custará; sou um homem de ferro.

A estas palavras, seguiu-se um esforço para levantar-se, mas eu o detive, dizendo:
  • Nada receies, porquanto quero salvar-te; confia em mim e dia virá em que renderás graças a Deus. Agora, dize-me, por que te encontras aqui?
  • Porque, conhecendo perfeitamente estas montanhas, ao fugir da prisão tinha por certa a minha segurança, oculto em qualquer destas furnas. Não contava, porém, com a fome e não sei que outra enfermidade me assaltou, pois parecia que me esfacelavam o peito a marteladas. Apenas pude encafuar-me ali onde me encontraste, cobrindo-me com os ramos mais à mão Depois... depois de nada mais me lembro, a não ser que morto estaria se não se dera a tua intervenção.
  • Sentes-te com forças para caminhar?
  • Agora, sim; não sei mesmo como tal sucedeu. Como já disse, fui sempre de uma robustez de ferro...
E levantou-se agilmente.
  • Arrima-te, pois, a mim e saiamos daqui. Como te chamas?
  • João.
  • Escuta, pois, João: faz de conta que nasceste esta noite para te tomares grato às vistas do Senhor.
Guiados por Sultão, saímos da furna, que fazia muitos ziguezagues; passamos as escarpas e, ao sentir-me em terreno plano, estreitei o braço do companheiro, dizendo-lhe:

João, contempla este espaço e bendiz a grandeza de Deus. - Para onde vamos? - replicou.
  • À minha casa onde, aliás, te ocultarei no meu oratório, lugar no qual ninguém jamais penetra. Ali descansarás e depois conversaremos.
João deixou-se conduzir, até que chegamos ao jardim da reitoria, muito antes do amanhecer. Levei-o para o santuário; improvisei uma cama, fazendo-o repousar e, conservando-o por espaço de três dias nesse esconderijo, tratei-o com carinho. Ele olhava-me, parecendo não compreender nada do que ocorria. Na terceira noite de repouso na aldeia, lá nos fomos eu, ele e Sultão, o inseparável, para uma ermida abandonada por morte do respectivo ermitão, havia muitos anos. Ante o altar derruído, sentamo-nos numa pedra, enquanto Sultão se estendia a meus pés.

João era uma figura repulsiva, de catadura feroz; estava como aturdido, a olhar-me de soslaio, não obstante mostrar-se satisfeito com o meu proceder.

Momentos havia em que seus olhos me fixavam com tímida gratidão. Dispus-me a submetê-lo à minha vontade e disse:
  • Ouve, João. Julgo-me feliz por te haver salvado de morte certa, pois, certo, de fome morrerias. Entregue por mim à Justiça de Toulon, certo, também, mil mortes por dia sofrerias. Conta-me, pois, a verdade.
  • Da minha vida pouco há que contar: minha mãe foi prostituta e meu pai ladrão; na quadrilha que capitaneava como tal, havia um italiano muito sagaz, que de pequeno me ensinou a ler e a escrever, assegurando que eu daria um bom falsificador de firmas e documentos, o que efetivamente se verificou, pois me tomei bom calígrafo, e falsário, às vezes.
“Há dez anos amei uma mulher e a mesma confissão que a ela fiz, aqui lha faço; ela, porém, de família honestíssima, repeliu-me indignada. Supliquei-lhe me atendesse; prometi levá-la para a América e lá regenerar-me. Tudo em vão.

“Dizia que me odiava e que acabaria por entregar-me à Justiça se continuasse a importuná-la; foi então que jurei matá-la, o que fiz mais tarde. Daí, veementes suspeitas contra mim e a minha condenação a galés perpétuas, com trabalhos forçados, ultimamente, por esse delito e outros atropelos.”  E nunca pensaste em Deus?
  • Sim, quando amei a Margarida, por sinal que a Deus implorei lhe abrandasse o feroz coração; quando, porém, minha louca paixão não deu outro resultado que o seu assassínio; quando vi outros homens de boa família casados e respeitados, rodeados de filhos e do mundo venerados, ao passo que eu arrostava com o desprezo social e a perseguição da justiça; quando vi que minha mãe expirava no cárcere, enquanto meu pai se suicidava para fugir dele, então, odiei o mundo e o Deus que me fizera nascer na mais baixa esfera social.
  • Mas, agora, que pensas fazer?
  • Não sei.
  • Quererás, acaso, permanecer algum tempo nesta ermida? Eu te trarei diariamente alimentação, roupa, livros, cama, o necessário enfim, e farei constar que um nobre, arrependido de licenciosa vida, deseja entregar-se à penitência por algum tempo.
“Sob o manto da religião poderás, tranquilamente, viver aqui algum tempo; ninguém te perturbará o repouso e, para que não sejas eventualmente reconhecido, quando saíres por essas montanhas, envergarás o hábito com a capucha sobre o rosto, apenas com o orifício dos olhos, que eu mesmo rasgarei. À noite, quando todos dormirem calmamente, poderás sair em liberdade para, do cimo dos montes, elevares tuas preces a Deus, alando o Espírito nas asas da Fé.

“Recusado este palio de salvação, não terás mais que uma vida desgraçada e uma morte violenta; se, no entanto, ouvires meus conselhos, tua alma se regenerará; teu espírito se engrandecerá fortalecido pelo arrependimento e, quando, finalmente, fores um homem; quando do teu passado só restar a vergonha e o remorso de haver delinqüido, eu te posicionarei outro meio de vida para que te tomes útil à sociedade. Aqui, é claro, só podes permanecer enquanto necessitares ser útil a ti mesmo, ao passo que, para amares a Deus, se faz preciso amares também os homens e com eles trabalhares. Já agora, deixo-te aqui e voltarei amanhã para que me dês conta da tua resolução.”

Sem responder, João quis lançar-se a meus pés, mas recebi-o antes em meus braços, estreitei ao coração o desgraçado e assim permanecemos longo tempo. Lágrimas benditas repontaram, pela vez primeira, daqueles olhos secos, ameaçadores, enquanto eu lhe dizia:
  • João! eis que já te batizaste esta noite nas tuas próprias lágrimas. Perdes, assim, o nome do criminoso e doravante te chamarás: O Embuçado.
Meus votos foram coroados do melhor êxito, pois, decorridos dois meses de retiro, já O Embuçado me parecia outro homem. Apoderou-se dele um tal ou qual misticismo, que eu, por minha vez, procurei fomentar o mais que pude, uma vez que para certos espíritos o formalismo é necessário.
Onde falta a inspiração, a rotina faz prodígios; e onde não há fé, a superstição a engendra, a questão é sujeitar e acostumar a alma a uma vida temente a Deus. Àquele que não pode amar o Eterno, faz-se mister que o tema, que lhe reconheça o poder, sorrindo ou gemendo.

Importa despertar na Humanidade a idéia do reconhecimento para com Deus, e, conforme o progresso do espírito, assim se devem empregar os meios.

Em João, a solidão, a meiguice, o repouso, o respeito, operam maravilhosamente sobre o seu espírito enfermo, revoltado pelo desprezo da sociedade: - o repúdio de uma mulher fê-lo assassino; mas o respeito por seu infortúnio e por sua obcecação leva-o a render culto a Deus, tremendo, humilhado, ante a sua grandeza.

Todas as tardes, após a visita ao cemitério, subia a vê-lo e muito me deleitava contemplá-lo na sua soledade.

Ao pensamento me assomavam, então, os pobres detentos derreados de fadiga, maldizendo a existência, esquecidos de Deus, em confronto com aquele criminoso arrependido, bendizendo a cada instante a misericórdia do Onipotente.

Certificando-me de que aquele espírito poderia novamente entrar no convívio social, proporcionei-lhe meus escassos recursos para que pudesse tomar passagem em um navio que conduzia trinta missionários ao Novo Mundo.

Recomendando-o ao chefe da Santa-Missão, ao abraçá-lo em despedida, disse-lhe: - “Meu filho, trabalha; constitui família e cumpre com bondade a lei de Deus!” Jamais olvidarei o olhar que me dirigiu, olhar que recompensou todas as amarguras da minha vida.

***
Quatro anos depois, recebi de João uma carta, na qual, depois de historiar mil episódios, dizia:

- “Padre, meu Padre, já não vivo só, pois que liguei meu destino ao de uma mulher. Tenho casa e tenho esposa; em breve, também terei um filho, que batizarei com o vosso nome. Ah! quanto vos devo, Padre Germano!

Se me houvessem entregado à Justiça, morreria amaldiçoando o mundo e quanto nele existisse; concedestes-me tempo para penitenciar-me; reconheci a onipotência de Deus, até que lhe roguei misericórdia para os desgraçados autores de meus dias.

“Bendito seja, pois, quem não me extorquiu a herança que a seus filhos dá o Criador.

“Tanto vale ao homem dispor de tempo... mas de tempo consolador, que não horas malditas, nas quais o condenado se curva trabalha azorragado pelo látego do capataz.

“Perdura-me na memória a ermida de O Embuçado e eu não quis perder o nome que me destes. Quando nascer meu filho, ensina-lo-ei a bendizer vosso nome, e, abaixo de Deus, vos adoraremos todos: ele, minha mulher e o vosso humilde servo O Embuçado.”

Esta carta, guarda-la-ei na campa, como lembrança preciosa da única vez em minha vida em que obrei com inteira liberdade.

Bendito sejas, Senhor! bendito sejas tu, que por instantes me permitiste o teu vicariato na Terra, pois, só amando e protegendo o ignorante, cumpre o sacerdote a sua sagrada missão. Feliz que sou, Senhor!

Feliz por me permitires dar vista a um cego, agilidade a um entrevado, voz a um mudo! E ele te lobrigou e alçou-se a Ti, dizendo: “Perdoa-me, Senhor!” E Tu lhe perdoaste, pelo muito que amas os humildes e arrependidos.

Feliz que sou, contemplando mentalmente, ao longe, nas florestas do Novo Mundo, essa humilde família ao cair do crepúsculo, quando, de joelhos em terra, erguem todos uma prece pelo pobre cura da aldeia.

Graças, Senhor, pois que, não obstante longe de mim, pude constituir uma família.

Macili
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Julgar pelas aparências



Senhor! Senhor! quando me chegará o dia de deixar este vale de amarguras?

Medo tenho eu de permanecer na Terra; o reflexo das experiências sociais oculta-me os abismos do crime, nos quais receio precipitar-me.

Quando alguém, desconhecido, se prosterna ante mim e me conta a sua história, sinto frio n'alma e, angustiado, exclamo: Um segredo a mais! Novas responsabilidades, além das muitas que me acabrunham!

Acaso serei perfeito? Terei mais luzes que outrem, para que assim me obriguem a servir de guia a uns quantos cegos do entendimento?

Por que essa distinção? Se tenho pensado como eles e como eles tenho tido paixões mais ou menos sopitadas; se me vi obrigado a fugir do contacto mundano para que o coração cessasse de rugir, então, para que este empenho em pretender que a frágil argila se faça forte como as rochas de granito?

Povos ignorantes que viveis entregues ao arbítrio de alguns míseros pecadores, não sei quem mais digno de compaixão: se vós, que vos enganais acreditando-vos grandes, se nós outros que nos vemos pequenos...

Senhor! Senhor! por que haveria eu de nascer para a casta sacerdotal?

Por que me obrigaste a guiar pobres ovelhas, quando não posso guiar-me a mim mesmo?

Senhor! certo, terás outras moradas, porque na Terra a alma pensadora se asfixia ao contemplar tanta hipocrisia e tanta miséria.

Quero marchar por bom caminho, e, sem embargo, em todas as sendas encontro precipícios que me atraem.

O sacerdote... O sacerdote deve ser sábio, prudente, observador, reto no seu critério, misericordioso na justiça, severo e clemente, juiz e réu ao mesmo tempo! Que somos nós na realidade?


Homens falíveis, fracos e pequenos. Meus companheiros me abandonam por me recusar, a exemplo deles, proclamar-me impecável.

Dizem que prejudico os interesses da Igreja... Porventura a Igreja de Deus necessitará dos míseros dons dos filhos do pecado?


Certo, ao templo do Eterno não fazem falta as oferendas de metais corruptíveis; com o incenso das boas obras, praticadas por almas generosas, perfumam-se os âmbitos imensos da Basílica da Criação.


Senhor! inspira-me. Se mau é o caminho que trilho, tem piedade de mim, já que meu único desejo é adorar-te na Terra, amando e protegendo meus semelhantes e continuando a amar-te noutros mundos, nos quais as almas estejam, por suas virtudes, mais próximas de Ti.

Estou aturdido, porque geral reprovação recai sobre mim; porque dois seres, apenas, no presente, me bendizem.

Perdoa-me, Senhor, se culpável tenho sido! Mas... como duvidar?

Se estás comigo, se és a mesma verdade, como hás de tolerar o erro? Tu não queres templos de pedra, porque tens um templo na consciência humana! Por mim, não te erigiriam soberbas abadias, nas quais umas quantas mulheres haveriam de rezar por hábito, acusando-te outras de injusto, porque em teu nome se viam sacrificadas na quadra mais bela da vida, em plena juventude.

Conventos! conventos! antecâmaras do sepulcro! Nos teus claustros se vive sem viver, quando Deus criou a Terra para todos os seus filhos.

Relembra-me a infância: vejo monges silenciosos, cadáveres galvanizados, múmias insepultas, e sinto nalma muito frio...

Nos conventos cumpre-se o prescrito pela ordem monástica e vive-se contrariando a lei natural... Se os votos enfraquecem, acaso se engana por isso o mundo e falta-se ao juramento contraído?

Nunca prometa o homem mais do que racionalmente pode cumprir.


O cérebro escalda-me; as ideias em ebulição violenta parecem querer romper-lhe os moldes estreitos. Necessito retratar-me: necessito ver estereotipado no papel o meu pensamento e tu, manuscrito querido, serás meu confidente. Dir-te-ei por que sofro, contar-te-ei como, no refúgio da minha aldeia, me perseguem e espezinham as lutas da vida.

Vinte anos há que me vieram buscar para ouvir em confissão um rapaz nobre, o opulento barão de G..., agonizante. Quando penetrei no aposento do moribundo, uma dama ricamente vestida achava-se ajoelhada junto do leito. O enfermo, ao ver-me, imperiosamente lhe ordenou que se retirasse e, ao ficarmos sós, ei-lo que descarrega a consciência, dizendo-me:


- Não posso jurá-lo, mas estou quase certo de que morro envenenado; e creio ser minha mulher a autora desse crime; deixo uma filha que não sei se é minha filha, mas o que está feito está feito; não quero escândalo após a morte, certo de que, de qualquer forma, Deus me vingará. Assim, não quero também deserdar uma criatura à qual não sei se me prendem quaisquer laços, e que, além disso, é inocente. Tenha Deus misericórdia da vítima e dos assassinos...

E, assim, expirou-me nos braços aquele desgraçado, sem atrever-se, na dúvida, a condenar.

A jovem viúva deu as maiores demonstrações de dor e gastou avultadas somas em luxuosas e repetidas exéquias.

Tempos depois, contraiu segundas núpcias, sem que por isso deixasse de mandar celebrar, todos os anos, ofícios comemorativos do primeiro marido.

Frequentemente vinha ouvir missa, quando os pássaros dizem - “glorificado seja o Senhor” - e permanecia isolada, rezando com fervorosa devoção.

No Verão, não faltava à missa matutina, vivendo perto da aldeia, em magnífica herdade. A filha, mais crescida, recebeu de minhas mãos o pão da vida e eu, sempre que a via, lembrava-me da confissão do pai.

A inocente Raquel penalizava-me, porquanto nas suas confissões infantis se queixava de que a mãe nenhum carinho lhe fazia, pelo que, ofendida, também não podia prezá-la.

E eu, que fui sempre infenso à confissão de quem quer que fosse, desejava ouvir da baronesa de G... a sua história, pois que meu coração pressentia algo terrível naquela mulher.

Para o mundo era ela um modelo de virtudes e pouco a pouco chegou a fazer-se tão devota, que passava horas e horas na igreja da aldeia.

Raquel foi crescendo, levando vida de completo insulamento. A infeliz queixava-se de que a mãe não a estimava, chegando às vezes, em momentos de cólera, a dizer que a odiava. Os irmãos, seguindo um tal exemplo, também a maltratavam e só o padrasto se lhe mostrava carinhoso.

Este, porém, era um homem de tímido caráter, absolutamente dominado pela esposa; e Raquel era, em suma, a vítima de todo eles.  Para todos os seres há, entretanto, um dia de sol; e assim foi que Raquel veio um dia dizer-me que amava e era amada, que um jovem escultor lhe pedira que a ele se unisse pelo casamento. Temia, contudo, que a mãe se opusesse, pois presumia que a destinavam para esposa de Cristo, posto que preferisse a morte ao claustro. E pedia-me proteção, a fim de não ser sacrificada, acrescentando que cederia a sua herança de bom grado, contanto que a deixassem unir-se ao eleito do seu coração.

Pois que ao forte cumpre proteger o mais fraco, prometi a Raquel salvá-la da cilada, que, segundo afirmava, lhe estavam preparando.

Não eram infundadas as suas suspeitas, nem tardou corresse o boato de que a exemplar baronesa de G... ia reconstruir um antigo mosteiro e que uma das noviças da nova comunidade seria a primogênita da devotissima fundadora.

Quando o soube, escrevi à Baronesa para que me concedesse uma entrevista no presbitério, ao que ela acedeu prontamente.

Não era a primeira vez que eu encarava fixamente uma mulher; a ela, porém, encarei-a para ler em seus olhos o que lhe fervia no coração, aliás, eu não acreditava que a extrema devoção por ela patenteada fosse resultante de grande fervor religioso, e infelizmente não me enganei.
Chegada que foi à Igreja, convidei-a a sentar-se e, sentando-me à sua frente, disse-lhe:
  • Sempre me tenho esquivado de receber confissões de quem quer que seja, mas a força das circunstâncias me obriga, hoje, a vos pedir em nome da religião que professo, em nome do Crucificado, que me façais uma confissão.
  • Não vim preparada para esse ato - respondeu -, uma vez que não fiz exame de consciência.
  • Não é necessário, senhora, pois tais coisas são pura formalidade; para dizer o que sente, precisa o pecador apenas de boa-vontade. Não há quem não tenha memória capaz de recordar todos os erros cometidos na vida.
A Baronesa empalideceu, deixou escapar um suspiro e nada respondeu.
  • Dizem que ides reconstruir o arruinado mosteiro de Santa Isabel...
  • É verdade: quero que a juventude tenha um novo albergue, para fugir às tentações do mundo.
  • Dizem, mais, que vossa filha Raquel será uma das primeiras noviças da nova comunidade...
  • Sim, pois em parte alguma se encontrará melhor que ali.
  • Mas, já consultastes a vontade de vossa filha?
  • Os filhos bem-educados têm obrigação de querer o que querem os pais.
  • Uma vez que se não contrariem suas inclinações particulares e que seu organismo e temperamento possam adaptar-se ao gênero de vida que se lhes queira impor. No caso de Raquel, criatura débil e enfermiça, encerrá-la num convento equivale a condená-la a uma morte prematura.
Parece-vos? A mim não me parece seja tão débil; antes acredito que o que lhe falta é a sujeição de um convento.
  • Pois eu penso que Raquel é uma sensitiva e neste sentido quis falar-vos, uma vez que me incumbe a sagrada obrigação de velar por ela. É verdade que sois sua mãe corporal, mas eu sou o guia da sua alma; fui eu quem lhe pôs na boca o pão da vida espiritual, quem lhe falou de Deus, tanto quanto sou o confidente dos seus angélicos segredos. E assim é que sei que a alma dessa menina não se compadece com a vida do claustro.
  • Pois eu, a bem dizer - replicou a Baronesa com acentuada contrariedade -, desde que ela nasceu, fiz voto de que não pertenceria ao mundo; e o voto feito deve cumprir-se.
  • Esse voto, porém, não tem valor, uma vez que a Deus prometestes um ser que vos não pertencia. Na verdade, não sabíeis o que pensaria, de futuro, a vossa filha, e Deus não quer o sacrifício, mas unicamente a felicidade de seus filhos.
  • E que maior felicidade do que servi-lo e amá-lo?
  • Mas, acaso não se poderá servi-lo e amá-lo em todas as paragens da Terra, sem escravizar uma pobre rapariga, que, à semelhança das flores, necessita de ar e sol para viver?
  • Não pareceis um sacerdote - disse com enfado.
  • Por que não? Será porque não cuido de explorar vossa devoção, opondo-me a que levante o mosteiro, e, principalmente, a que Raquel não faça parte da comunidade? Mas eu sei perfeitamente que a alma dessa menina não nasceu para a aridez do claustro; ela é meiga, carinhosa, expansiva; é um ser por Deus destinado a modelo das mães de família.
  • Pois eu a consagrarei a Deus, e a Deus somente servirá.
Nesse momento, não sei o que se passou em mim; senti-me engrandecido, revestido de tal ou qual poder espiritual; acreditei-me, por instantes, um enviado de Deus, sem saber que anjo me inspirou. Uma força estranha, uma potência desconhecida transfigurou meu ser, para que deixasse por momentos de ser o paciente e resignado pastor que sorria à travessura das suas ovelhas; o peito arfava-me com violência inusitada; parecia que mãos de fogo se me apoiavam à fronte: zumbiam-me aos ouvidos palavras mil, confusas, incoerentes com a destra estendida, ergui-me presa de terror e espanto inexplicáveis, parecendo ver sombras de noviças que fugiam em debandada. Acerquei-me da Baronesa, pousei-lhe a mão no ombro e com voz cavernosa, antes eco de sepulcro, disse-lhe:
  • Escutai a um ministro de Deus, e ai de vós se vos atreverdes a mentir.
Ela fitou-me e não sei o que teria lido nos meus olhos que lhe fez baixar os seus, dizendo com voz trêmula:
  • Que quereis? Tenho-vos medo... E a infeliz pecadora começou a tremer.
  • Nada temais, pois quero apenas o vosso bem, ou antes, não sei quem o quer, visto que alguém murmura ao meu ouvido o que vou dizer: - Vossa devoção, vosso misticismo, vosso fervor religioso têm uma base: sabeis qual seja?
  • Qual? - repetiu com voz sufocada.
  • O remorso! - Que dizeis? - balbuciou, tremendo.
  • Repito-o - repliquei em tom acentuadamente intencional. - A causa do vosso fanatismo religioso é o remorso. Há vinte anos recebi a confissão do vosso primeiro marido, e ele, ouvi-me bem, senhora - nem percais um só acento destas palavras - o vosso primeiro marido, confiou-me o nome do seu assassino. Entendeis? Ele tudo sabia, tudo, nos seus mínimos detalhes!
Ela fixou-me então, leu nos meus olhos o seu nome e desmaiou: mas, com a mão direita toquei-lhe a fronte e minha voz, naqueles momentos profética, lhe disse com vigoroso entorno:
  • Despertai!
A desgraçada abriu os olhos, espantada, e quis arrojar-se-me aos pés. Detive-a, dizendo:

- Ouvi-me. Sei vossa história e acompanhei, passo a passo, a espinhosa trilha da vossa vida. Vós vos casastes mais tarde com o cúmplice do vosso crime, ao passo que Raquel, como fruto da vossa primeira falta, constantemente vos recorda uma parte dos vossos desatinos. Os outros filhos, natos de legítimo matrimônio, não vos causam remorso; mas essa menina, portadora de um sobrenome que lhe não pertence, vos atormenta, com certeza.

Talvez lobrigueis a sombra do morto, que vos persegue onde e quando quer, e penseis aplacar-lhe a ira mandando dizer missas por sua alma; agora, quereis levantar um convento com o dote usurpado a Raquel; e quereis enclausurar longe de vós essa menina inocente, para não terdes presente o fruto da vossa primeira falta. Acaso pensais que, com esses atos de falsa devoção, merecereis o perdão de Deus? Não, nunca! Aos homens podereis enganar na Terra; poderão os iludidos haver-vos por santa, mas a Deus não aproveitam comédias religiosas. Não vades cometer um novo sacrilégio, não sacrifiqueis Raquel. Já que ela ama e é amada, deixai que seja esposa de um homem, pois Deus tem por esposa a Criação!

A Baronesa quis falar, mas eu detive-a, dizendo:
  • Não dissimuleis, é inútil, pois leio o passado nos vossos olhos. Basta ver-vos para nos condoermos profundamente; tendes quanto basta para serdes ditosa, e, não obstante, prematura velhice vos afeia o corpo; sempre que vos hei visto ajoelhada na igreja, tive pena, uma vez que por um momento de leviandade arrastais uma existência de martírios.
Procurais dia a dia ser mais devota, certamente porque, dia a dia, mais culpada vos reconheceis. Fazei o que Deus vos ordena, pois; acedei ao casamento de Raquel e empregai a sua avultada fortuna na construção de um hospital capaz de socorrer uma centena de famílias pobres.

Ela, Raquel, vo-la cederá de bom grado e com isso fareis boas obras; empregareis em benefícios o que vos pertence e não sacrificareis uma inocente cujo delito é recordar vossa primeira falta.
Olhando-me, sem saber o que responder, a Baronesa ergueu-se para novamente recair na cadeira, procurando abafar os soluços...
  • Chorai, pobre mulher! chorai! - disse - com lágrimas rezam aqueles que, como vós, esqueceram o quinto mandamento.
Ela deixou lhe corresse copioso o pranto, e eu deixei-a chorar livremente.
Por fim, acrescentei: - Jurai-me que satisfareis o meu pedido...
  • Jurai-me vós que rogareis por mim - replicou com profundo abatimento.
  • Vossas boas obras serão a melhor oração, senhora; falai, porém sem receio, porque calastes durante vinte anos e esse silêncio tem sido o vosso próprio verdugo. Pois não é verdade que sofreis? Não é verdade que vossas orações não vos acalmam o coração?
  • Sim, Padre... Quanto haveis dito, me sucede. Ele vive comigo. Raquel assassina-me... Quando ela nasceu - nem quero recordar o sentimento que me inspirou! Quando ele lhe fazia carícias e prestos a afastava de si, não sei explicar o que eu sentia; se a olhava com profunda ternura, então... mais ainda eu sofria...
Ah! Padre, bem certo é que a mulher que cai só se levanta para de novo cair... e eu... eu caí no abismo do crime! Depois, quando a bênção sacerdotal me ligou ao segundo marido, acreditei que repousaria, mas em vão! Para vos ser franca, direi que em nada creio, uma vez que a religião não me consola; mas, sobretudo, o que eu tenho é medo, Padre, perdendo-me no caos da dúvida!
  • E passais, no entanto, por ser a mulher mais devota desta comarca! Vede o que é julgar pelas aparências! Eu vo-lo repito: não consumais o vosso iníquo intento sacrificando um ser inocente.
  • Lembrai-vos, Padre, de que Raquel é filha do pecado.
  • Se formos a pensar assim, todos os vossos filhos o são, senhora. Julgais, acaso, que o vosso segundo matrimônio é válido perante Deus? Recebestes, creio, por mera formalidade, a bênção de um homem, mas as uniões sacrílegas jamais as abençoa Deus.
  • Mas os livros sagrados dizem que as faltas dos pais recairão sobre os filhos até à quarta e quinta gerações.
  • E a razão natural também compreende que o inocente está livre da herança pecaminosa. Deixai que cada qual de vossos filhos cumpra a sua missão, não aumenteis vossa falta sacrificando Raquel.
Finalmente, a Baronesa prometeu cumprir meus desejos e de fato o fez, com a condição de a filha ceder a fortuna em benefício da pobreza, no caso de não querer professar. Esta, a meu conselho, aquiesceu contentíssima, e já sorridente de felicidade apresentava-me o noivo, dizendo com meiguice:
  • Abençoa-nos, Padre!
E eu os abençoei de todo o coração, esse casal juvenil que por milagre pude salvar de infalível desgraça. A Baronesa aplicou o dote da filha não só na construção de um hospital, como também no auxílio de uma centena de famílias pobres, rasgos esses que a santificaram aos olhos do mundo.
Repetem todos: - “Uma santa que passa mais tempo na igreja do que em casa...” - e como as palavras voam, dizem que dizem que eu a fiz desistir da construção do convento, tanto quanto apadrinhei o casamento de Raquel com o amado do seu coração... Daí, que subtraí à Igreja uma casa de salvação... E, pois, se ontem alguns colegas me odiavam, hoje..., se o pudessem, me fariam empreender viagem para a eternidade. As recriminações chovem sobre mim; dizem que sou um mau sacerdote, que mais pensa nas coisas da Terra do que nos interesses do céu; que sou um pastor descuidoso que deixa desgarrar as ovelhas... Há momentos, Senhor, em que de mim mesmo duvido mas logo raciocino e digo: - “Mas, então, fora melhor levantar o convento e fazer nele entrar uma pobre menina que até então mal vivera - e isto precisamente no desabrochar da vida, no abençoado momento de se tomar ditosa - arrebatar-lhe violentamente a felicidade, enterrá-la num claustro, onde viesse a morrer maldizendo a religião que lhe impusera o martírio, pois que lhe ordenava morresse para satisfazerlhe à vontade? Que será melhor, repito: - destruir a crença de uma alma juvenil e confiante, ou cooperar para a sua felicidade, unindo-a ao homem que a adora, criando assim um lar ditoso?”

São tantas já as casas de reclusões! Muitas, também, inumeráveis, são as vítimas das tiranias religiosas! Feliz de mim, se puder arrebatar uma vítima desse martirológio!

A mim, não me importa que me apontem a dedo, dizendo que meus conselhos desviam da boa senda os servos do Senhor.

Se Deus é todo verdade, não lhe devemos oferecer adorações fementidas.

Consagre-se à penitência a alma lacerada, que verdadeiramente necessite de isolamento para pensar em Deus; mas a mulher jovem, que ama e é amada, esta, que erija o sagrado altar da família, para que ensine os tenros filhinhos a bendizer o Criador.

Senhor! Senhor! dizem que subtraí uma casa à tua Igreja e, não obstante, creio haver aumentado a tua propriedade, uma vez que a tua graça penetrou na choça dos infelizes, recebendo eles valiosa esmola em teu nome; e, assim, também os enfermos, os peregrinos e viajores, os pobres meninos estropiados de fadiga, ao chegarem a esta aldeia, encontram piedosa hospitalidade no benéfico asilo dos desamparados.

Não será esta, Senhor, a tua verdadeira casa? Tua casa é aquela em que o faminto e o sedento matam a fome e a sede, onde o desnudo acha abrigo, consolo o aflito, conselho eficaz o espírito flutuante; aí, sim, está a tua verdadeira casa.

Onde quer que o bem pelo bem se faça, não há necessidade de levantar casas nas quais se reze rotineiramente, pois para rezar com a alma todos os sítios se prestam, sempre que o homem eleve a Deus o pensamento.

Perdoa-me, Senhor! Tu lês na minha mente quando todos me acusam!

No tribunal da Terra sou julgado mau sacerdote; entretanto, tu és a verdade mesma e eu quero que os homens te adorem em espírito e verdade.

Macili
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A Fonte da Saúde




Para nós, o passado é sempre o melhor. Por via de regra, o dia de ontem nos sorri misteriosamente ao coração, ainda que nele a miséria nos tenha oprimido e torturado. Alegria secreta, essa, no recordar as horas que se confundem nas sombras do que lá se foi...

Por que isso, Senhor? Ah! é fácil adivinhá-lo: é porque, quanto menos anos contamos, menos responsabilidades nos oneram.

Assim, o tempo passado se nos afigura o melhor, uma vez que a cada hora transcorrida ou cometemos uma falta, ou presenciamos um crime, ou lamentamos uma injustiça, ou deploramos uma dolorosa mentira. É bem certo o rifão: quanto mais se vive mais se aprende. Senhor! amplíssima tem sido a minha jornada e muito hei visto. A fundo tenho sondado o coração humano... tão atentamente tenho acompanhado o vôo das inteligências, que, com cem voltas ao mundo, eu não veria tanta variedade de idéias e tanta desordem em todos os sentidos, quais as tenho observado nos longos anos transcorridos no rincão da minha querida aldeia. Que preocupação a dos homens em parecerem bons! Logo, não pecam por ignorância; ou, por outra, sabem o que é ser mau, conhecem o mal! E assim como Adão se ocultou do Senhor após o pecado, com vergonha de s nudez, assim vestem os homens a nudez dos seus vícios com o manto de virtudes hipócritas; e o fato é que nada se molda melhor a essa prestidigitação das almas do que as tradições religiosas.

A Religião só admite a verdade, é certo; mas as religiões... são o manto das misérias humanas... E eu aceitei a missão do sacerdócio no firme propósito de ser um mártir, se tanto fosse preciso, mas nunca um pecador; a bem dizer, todos pecamos; mas erros há premeditado, como há faltas que se originam da nossa fraqueza física e moral; entretanto, cumpre pecar o menos possível, já que a perfeição absoluta é exclusivo predicado de Deus.

Força, e muita, se faz preciso na Terra para ser severo com os hipócritas, uma vez que se converte a gente em alvo de todos os ódios; assim, deveriam reconhecer a minha retidão, pois sabem que não condeno, recordando o procedimento de Jesus com a mulher pecadora. Sabem que transijo com o pecador; jamais, porém, com a iniquidade.

Nos braços estreitarei aquele que ingenuamente me disser: “Padre, sou um miserável, sou um malfeitor!” Repelirei, contudo, abominarei e afastarei da minha presença aquele que me venha encarecer seu amor a Deus, seu desprendimento das coisas terrenas, em o vendo eu radicado às vaidades mundanas como ostra ao rochedo.


Por que, pois, me perseguem, colocando-me na contingência de os desmascarar, dizendo-lhes de frente o que mais ofende o homem - a enumeração dos seus defeitos? Senhor! Senhor! Tem misericórdia de mim, lembra-te de que sou fraco, que sofri, amei e comigo mesmo lutei em toda a minha vida! Por que exigir de mim virtudes que não possuo? Por que ver-me envolvido em histórias alheias, quando da minha história o próprio peso me acabrunha?

Senhor! Cada dia que passa, mais me convenço de que hei vivido ontem e hei de viver amanhã, para realizar o sonho de minh'alma. Conheço que minhas forças estão gastas, que necessito repousar em nova existência, na qual de todos viva esquecido, menos da companheira de minh'alma, porque não compreendo a vida sem a fusão de dois corações num só coração de duas almas numa só alma.
Senhor! Quanto almejo o termo desta jornada... tão cheia de contrariedade, havendo de lutar, abertamente, criando-me numerosas inimizades... Sim! eu quero viver num recanto da Terra; quero ter minha cabana rodeada de palmeiras; quero amar uma mulher de pálido semblante e negros cabelos; quero estreitar ao coração crianças formosas que me chamam - pai! quero bendizer a Deus quando os pássaros o saudarem, extasiar-me na meditação quando a esposa do Sol acarinhar a Terra... Quero, enfim, retemperar as forças, adquirir vida, para que o espírito sorria... Quero, ainda, que por algum tempo não me cheguem aos ouvidos os lamentos dos homens, ignorando as lutas dessa Humanidade! Nem me chama egoísta, Senhor, porque trago comigo muitos anos de luta. A carreira do sacerdote é das mais penosas quando ele quer cumprir o seu dever. Tanto se exige do sacerdote!...


Indubitavelmente, foi por expiação que aceitei esse mister, porque, ao ver tantas infâmias, tantos crimes ocultos, todo o meu ser estremece e me sinto pequeno, muito pequeno para reprimir tantos abusos; e quando quero cortar algum, eis que meus superiores me ameaçam, dizendo que os fins justificam os meios. Sofro então, muito, Senhor, porque não admito fins dignos, a essas Eminências: - “Senhores, ou bem se crê, ou se não crê em Deus.” Se reconhecemos uma Inteligência suprema se consideramos que um olhar infinito está constantemente fixado na Criação, devemos compreender que para esses olhos eternos não há ocultar o que sentimos; assim, pois, a falsa devoção de nada serve... Que importa aceitem-na os homens, se para Deus ela não tem valor? Acaso serão as religiões meros convênios para criar privilégios mundanos? Não. As religiões devem servir para aproximar o homem de Deus, porque as religiões são um freio ao galope das paixões; uma vez que não conseguem melhorar-nos intimamente, tão ateu é o que diz não crer em Deus, como o que levanta uma capela para encobrir um crime.

Senhor! Senhor! a ti me confesso; faltam-me forças para lutar com os homens... Arranca-me, pois, este amor à verdade para que possa tolerar a hipocrisia, ou reveste-me de maior energia para que nos supremos momentos da luta conserve meu pobre corpo a energia necessária e vital para vencer, tão íntegro quanto o meu espírito. Eis que me encontro agora mesmo alquebrado, tendo passado uns quantos dias cruéis, porque - é preciso que o diga - quando me ponho em contacto com o mundo, sou profundamente desgraçado.

Oh! a Humanidade! A Humanidade tudo envenena!

Quem diria que uma tranquila fonte a que os aldeães denominam - Fonte da Saúde - haveria de proporcionar-me sérios desgostos, amargas contrariedades e ao mesmo tempo fazer uma boa obra - salvar uma rosa inçada de pungentes espinhos?

Manuscrito querido, quando eu amanhã deixar a Terra, sabe Deus aonde irás parar... Quem quer, porém, que te possua, desejo aprenda nestas confissões e reflexões de minh'alma a que extravios nos conduzem as paixões desordenadas, vendo que a hipocrisia e o fingimento hão sido, quase sempre, o móvel das fundações religiosas.

Ao pé de uma montanha, entre dois penhascos, uma torrente de água cristalina acalmava a sede dos meninos da minha aldeia; e por aquelas tardes felizes em que eu passava, rodeado de crianças - quando ainda não conhecia as misérias do mundo aprazia-me sentar junto ao rústico manancial para contemplar a família infantil, que corria e saltava alegremente, deleitosa, acompanhando sua frugal merenda daquele néctar da Natureza tão necessário à vida. Ao contemplar aquelas carinhas rosadas, aqueles olhos brilhantes, aqueles lábios sorridentes que recolhiam sôfregos a pura linfa, dizia-lhes: “Bebei, bebei, filhos meus, que esta é a água da saúde.” Desde então, todos os habitantes da aldeia passaram a chamar o manancial humilde - a Fonte da Saúde.

Água salutífera, na verdade, para os inocentes petizes que me acompanhavam pressurosos, a fim de os deixar brincar com Sultão e contar-lhes histórias de lobisomens. Para as almas inocentes todas águas são boas! De resto, quando cheguei à aldeia, notei muito desasseio em relação às crianças, de sorte que lhes fui ensinando a limpeza como dever do bom cristão, e para que facilmente me entendessem, dizia: - “Se lavardes os olhos duas vezes ao dia, com água da Fonte da Saúde, nunca tereis moléstias.”

E aqueles inocentes, que me estimavam muito, cumpriam rigorosamente a prescrição do “Senhor Cura”, acreditando que a água contivesse milagrosa virtude, quando esta consistia no asseio que eles, como as mães, foram adquirindo pouco a pouco. Eis aí a origem da Fonte da Saúde... Que simples o princípio das coisas! Entretanto, como se não fazia especulação alguma, eu lhes deixava crer que aquela água continha a virtude de conservar a vista, desejando que os meus fiéis tivessem o hábito da higiene.

Certo dia, veio um dos maiorais dizer-me que seria conveniente erigir uma capela naquele local, porque assim, quando as mulheres fossem buscar água, poderiam rezar; que ao pecador se fazia mister deparasse, a cada passo, pequenos templos onde orasse e se arrependesse de suas faltas; que, igualmente, aquela água poderia ser propriedade da capela, assegurando, a preços módicos, uma renda certa para a nova ermida.

Fitei meu superior de alto a baixo e disse-lhe friamente: - Compreendo perfeitamente a vossa intenção, mas, desculpai-me o não me conformar com ela. Templos não faltam, que até os há em demasia. Quanto a estabelecer preço para a água, também se não pode fazer, uma vez que essa água nenhuma virtude possui. Já a analisei quimicamente e posso afirmar que nenhuma substância contém que possa recomendá-la especialmente.
  • Mas chamam-lhe água da Fonte da Saúde...
  • Esse nome lhe pus eu, no intuito de aliá-la aos hábitos de asseio, que desejava implantar entre os meus paroquianos. A limpeza é a saúde e eu queria que estes pobres seres, desprovidos até do mais necessário, tivessem uma riqueza positiva gozando saúde inalterável, pois sabido é que a limpeza não só fortalece o corpo, senão que o vitaliza e embelece. Levante Vossa Reverendíssima a capela noutro qualquer sítio (capela que não julgo necessária), mas deixe correr livremente o manancial da saúde, pois não quero especulações à sombra da religião.
  • Sois um mau sacerdote, não sabeis insuflar a fé religiosa.
  • Do modo por que o quereis, jamais a insuflarei; se Deus é a verdade, só a verdade se lhe deve ofertar...
Mas, haveis de consentir, porque uma opulenta família aqui estará em breve, atraída pela nomeada da Fonte da Saúde. A primogênita dessa nobre família está enferma; sua mãe (devotíssima senhora) espera que a filha aqui se restabeleça e já tem feita a promessa de que, se tal suceder, levantará uma capela junto à fonte abençoada; eu vo-lo repito, não estorveis a que se levante uma nova casa de oração.
Ia retorquir-lhe, mas pareceu-me que alguém me segredava ao ouvido:
  • Cala-te e espera.
Nada respondi; meu superior acreditou-me convencido por seus argumentos e despediu-se mais afetuosamente que de costume.

Em breves dias chegou a família anunciada, isto é, parte dela, pois não vinham mais que a mãe e a filha mais velha, com vários fâmulos que, depois da instalação de seus patrões, volveram à cidade, ficando apenas um velho escudeiro e a enfermeira da jovem enferma.

Imediatamente fui oferecer-lhes meus préstimos, pois recebi ordens terminantes a respeito; mesmo que assim não fosse, fa-lo-ia, pois, além do mais, pressentia que aquela gente trazia mistério consigo e, não obstante fugir das pessoas quando nelas pressinto a preconcepção de um crime, venço a repulsa e faço quanto possível para evitá-lo. Creio, aliás, ser esta a minha única obrigação: evitar o mal e praticar o bem.

De fato, logo que as vi, compreendi que me não enganara: a mãe era uma criatura boa, no fundo verdadeiramente crente em Deus, porém ciosíssima da sua nobre linhagem: cem vezes se mataria, antes que admitisse um plebeu na família; a filha era tão orgulhosa quanto a mãe, supersticiosa e dominada absolutamente pelo fanatismo religioso, tanto quanto pelo orgulho da sua nobilíssima estirpe. Conhecia-se que estava enferma, pela sua extrema palidez; a expressão do rosto denotava um tédio tão profundo, que tudo a molestava, a começar por si mesma.

Fui diplomata pela primeira vez na vida; deixei que discorressem, principalmente sobre a construção da capela, dispostas a levantá-la junto à Fonte da Saúde, desde que a jovem Clarisse se curasse, como esperavam sucedesse. Eu as perscrutava e pedia forças para calar-me, pois compreendi que Clarisse, embora enferma, tinha remédio para a sua enfermidade. Comecei a estudar o caráter daquela mulher e vi que possuía um coração de mármore e uma inteligência prejudicada por excessivo orgulho, fazendo de Deus uma ideia tão absurda e inadmissível que se não podia ouvir com calma os seus desdenhosos raciocínios.


Todos os dias, lá se ia ela a beber água da fonte e, no entanto, a palidez lhe aumentava, como lhe aumentavam a impaciência e a irritabilidade de caráter. Dispus-me a senhorear aquela alma rebelde por meio da brandura, mas logo compreendi que de um tal espírito só pelo medo religioso fora possível conseguir alguma obediência. E foi assim que, para com ela, fui sacerdote severo, a lembrar-lhe continuamente o inferno, no qual, aliás, nunca pude crer. Em compensação, sua mãe achava-se em melhores condições: de caráter mais brando, facilmente estabelecemos intimidade, até que, tempos depois, me disse em confissão o seguinte:

  • Ah! Padre; tenho na consciência um peso que me acabrunha tanto, que nada disse a meu marido. Disse-o, contudo, ao meu confessor e este aprovou meu plano; sempre, porém, que vos ouço, meu Padre, não sei o que se dá comigo; mas a verdade é que me sinto confusa e perdida entre mil idéias distintas. Há nesse planos circunstâncias tão agravantes que necessitamos de poderosa força de vontade para desempenhá-lo.
  • Já há tempos compreendo que a senhora sofre.
  • Ai! Padre, sofro muito! Desgraçadamente, minha filha Clarisse vai ser mãe e do modo mais fatal que se pode imaginar: basta dizer que o seu fardo é fruto de um amor incestuoso. Ela e um seu irmão (filho bastardo de meu marido) foram vítimas de satânica tentação. Precisamos salvar a honra da família antes de tudo. Ao descobrir essa horrorosa loucura, contudo, já não era tempo de reparar o mal; apelamos para os remédios violentos a ver se conseguíamos aniquilar o ser em má hora concebido, mas tudo em vão. Aqui chegados, apelamos para novos remédios, inutilmente ainda, e agora se faz preciso, meu Padre, que nos auxilieis neste transe fatal.
  • Em que poderei ser-vos útil, senhora? Falai, que disposto estou a ouvir.
  • Obrigada, Padre; não esperava menos de vós e crede que saberei recompensar vossos serviços. Quando o filho do crime, quando o fruto do incesto vier ao mundo, é necessário sufocar-lhe o choro; e, para desagravo do Eterno, levantaremos sobre a sua ignota sepultura uma ermida, que tomará o lugar da fonte próxima e se denominará a Capela da Saúde.
Minha filha, liberta do fruto ominoso, ficará boa e acreditarão que a cura se fez pela água da fonte bendita. O santuário ganhará renome e com a fundação dessa obra se engrandecerá a Igreja de Deus. Finalmente, se os meios não são quais foram para desejar-se, os fins melhores não podiam ser, ficando sem mácula a honorabilidade de uma pobre família e levantando-se um templo, que será grandioso de futuro, e ao qual acudirão os fiéis, a implorar a misericórdia de Deus.
  • Dessa misericórdia necessitais vós, senhora; da misericórdia do Eterno, para que vos perdoe um infanticídio.
  • Um infanticídio, Padre?
  • Outro nome não tem o assassínio de uma criança! Quereis levantar um templo sobre um túmulo! Quereis que o sangue de uma criança inocente sirva de argamassa às pedras de uma nova igreja, levantada para encobrir um crime! E acreditais, pobre pecadora, que essa casa de oração possa ser grata ao Divino Jeová? Não blasfemeis mais, senhora, porque ai dos blasfemos.  Acreditais que os incestuosos serão menos culpados, se depois de cometerem um assassínio dispuserem as primeiras pedra de uma catedral? Ah! senhora, Deus não quer templos de pedra, porque Ele os formou, múltiplos, na consciência de cada homem.
  • Como desarmar, então, sua justa cólera?
  • Pois acreditais que Deus se encolerize como qualquer fraco mortal? Acreditais que os tristes episódios da Terra possam chegar até ao seu trono excelso? Quando pôde o negro corvo manchar o arco-íris? Quando pôde o réptil, rastejando no lodo, livrar-se às ondulações do éter?
  • Mas, que fazer, então, para conseguir algo meritório? Eu vo-lo confesso, Padre, tenho medo...
  • Que fazer? Escutai-me e ai de vós se me não obedecerdes. O que cumpre é procurar secretamente quem se encarregue de pobre ser que há de vir ao mundo, e que, se a ele vem, é que algo tem de fazer aqui. Se o quiserdes, de tudo me encarregarei: a quantia que iríeis gastar na construção da capela, antes a empregareis na constituição de um patrimônio para esse pobre órfão, a quem já basta, por desgraça, o nascer sem um beijo de mãe. Já que o orgulho da família, como a fatalidade, lhe arrebatam o pão do espírito, não lhe negueis vós o pão do corpo, tanto mais quanto é o vosso sangue que lhe há de correr nas veias.
  • Ah! Padre, o que propondes é assaz comprometedor, ao passo que um homem morto não fala.
  • Não fala! Mas, que dizeis? um morto fala mais que toda uma eterna geração! Sabeis o que é ser perseguido pela sombra de uma vítima? Sei-o eu, graças a Deus, não por experiência própria; muitos criminosos me têm contado suas angústias e eu sei que o remorso é o ponto do tormento em que se tritura a consciência humana. Em nome de Deus, portanto, e por amor do próximo, eu vos proíbo, terminantemente, levar a cabo o vosso desígnio sinistro. Deixai-me agir, porque arranjarei na vizinha aldeia uma família que se encarregue do filho da loucura. Quanto a vós, cumpri a lei de Deus, se não quiserdes que o sacerdote se converta em juiz implacável.
Não sei que metamorfose se opera em mim quando procuro evitar um erro, mas sinto-me engrandecer, não sou mais o tímido pastor das almas, que foge do perigo, antes juiz severo, que toma o depoimento dos primeiros Potentados da Terra. O resplendor das coroas, nesses momentos, não me deslumbraria, tão forte me julgo e investido me sinto de um poder especial. Parece que se me não executassem as ordens, não olharia as conveniências sociais, dizendo a verdade inteira à face do mundo. No entanto, antes de consentir numa felonia, creio que atentaria contra a própria vida. Em tais momentos, porém, exerço subjugação tão poderosa sobre os que me cercam, que eles me obedecem, senão voluntariamente, força: - para salvar um inocente, converto-me em permanente acusador e não descanso um segundo em tomar todas as precauções para evitar a consumação de um crime.

Não descansei durante um mês, até achar uma família capaz de tomar a seu cargo o pobre órfão; assegurei-lhe o futuro com avultado pecúlio; e, quanto a Clarisse, doutrinei-lhe constantemente o amor do próximo, até o dia em que, moribunda, deu à luz um menino. A pobre moça ouvia-me com profundo assombro, parecendo humanizar seus sentimentos; mas eu não me tranquilizei enquanto não vi o menino nos braços da ama, dormindo docemente. Pobre entezinho condenado à morte antes de ter nascido! Salvei-te de morte certa... Qual será tua missão na Terra? Deus, unicamente, o sabe!
Ao regressar à Corte, Clarisse apertou-me a mão efusivamente, dizendo: - “Obrigada, Padre; quando para aqui vim, estava desesperada, e, graças a vós, hoje me encontro tranquila. Velai por ele, meu Padre, e, quando possa rezar, ensinai-o a rezar por sua mãe.” Ao ouvir palavras tais, ao ver que havia conseguido abrandar aquele coração, senti tão grande satisfação que me dou por compensado em minhas grandes amarguras. Só em recordá-lo, adquiro forças para resistir ao combate que me aguarda, visto que meus superiores me chamarão a prestar-lhes severas contas, por não haver consentido se levantasse a capela da saúde, utilizando o manancial que lhe dava o nome.
Muito sofrerei; gravíssimas recriminações cairão sobre mim, porém... a consciência está tranquila. Senhor! Salvei um inocente de morte certa e assegurei seu futuro; não participei da piedosa fraude de transformar uma água comum em água milagrosa; evitei que se consumasse um embuste e que duas desgraçadas mulheres se fizessem infanticidas.


Pois não será melhor assim? Não será mais justo do que deixar construir um templo sobre a cova de um inocente?

Quem sabe o que esse menino poderá ser?

Senhor! creio haver cumprido estritamente o meu dever e quanto a isto estou tranquilo, mas as recriminações injustas me fatigam e vão envenenando o ambiente de minha vida, a ponto de já não encontrar um recanto onde possa livremente respirar.

Muita gente me tacha de herege, de falso ministro de Deus! Senhor! dá-me força de vontade para calar, uma vez que os segredos da confissão não os posso revelar; mas eu te amo, Senhor! amo-te e creio que te devemos adorar pelo culto das boas ações. E boa ação não é, decerto, cometer fraudes em teu nome. Se em ti tudo é verdade, não devemos adorar-te com hipocrisia.

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6


O melhor voto




Que vem o homem fazer na Terra, meu Deus? Contemplando a Natureza, vemos, pelas leis que a regem, que o ser humano, senhor de toda a Criação, domina quanto existe.

Vem ele, portanto, tomar posse dos seus vastos domínios; colonizar extensos continentes, singrar os mares em alterosas naves, estudar na grande biblioteca da Criação! Vem, em suma, trabalhar incessantemente, pois que a lei do trabalho é a lei da vida.

Mas... ainda bem: - se a ocupação contínua é a síntese da própria existência, estarão dentro da lei as comunidades religiosas?

Não, porque o trabalho deve ser produto, há de proporcionar benefícios, há de servir para engrandecer o homem moral e intelectualmente, e o trabalho a que mais se dedicam os religiosos é absolutamente estéril, uma vez que a oração a horas fixas é penosa tarefa, é rotina em ação, é qual pássaro sem asas, que, ao invés de alçar-se às alturas, rasteja e cai ao solo.

As preces elevadas ao som do campanário não transpõem as grades do coro; são como os mananciais que rolam entre barrancos pedregosos, sem deixar vestígios de sua passagem.

Que é a oração? - O gemido da alma e o sorriso do espírito. Ela é o queixume do aflito e o suspiro do crente! Idioma universal, falado por todos os povos em relação a Deus!

E o homem, ser meticuloso por excelência, sujeito a sensações diversíssimas, há de num momento dado fixar em Deus seu pensamento? Impossível, impossível!

O homem que ora quando lhe ordenam será um cadáver galvanizado, jamais uma alma que sente.

O êxtase do espírito não se produz quando queremos; livre como as águias, não há clausura nem voto que lhe detenham o surto.

Creio, pois, que as comunidades religiosas dão frutos improdutivos.

Lavradores que aram granítica montanha, nos sulcos que fazem não poderia abrigar-se uma formiga sequer.

Nas épocas do terror, quando o mundo era um acampamento, quando o direito de conquista era a divisa dos povos, vá que as almas tímidas se refugiassem em remoto asilo; mas, quando os códigos raciocinados prescrevem aos homens direitos e deveres, os conventos são verdadeiro contra-senso, paralisação de vida, lugar de estacionamento para os espíritos, e, finalmente, um inferno para as mulheres. Outrora, acreditei que assim não fosse; mas, depois que em confissão ouvi a muitas monjas, quando essas infelizes me abriam o coração, era como se vertessem rios de lágrimas; e eu sentia tormentos e tormentas, horas de agonia inexplicáveis, desfilando em sinistro cortejo pelo confessionário.

Mulheres fanatizadas que pronunciaram o seu voto; que professaram antes de conhecer as alegrias da vida, quantas e quantas! Outras, mal despertas de um sonho feliz, cedendo a imposições horríveis! Outras ainda, que, por força de circunstâncias, houveram de aniquilar pequenos seres que elas amariam de todo o coração! Outras... - Mas, por que prosseguir?

A maior parte, sem esperança e sem fé, sem crença alguma, cedendo à mais odiosa das servidões!

Ah! Quão tristes são essas histórias do claustro! Aí se ora, é certo; mas, ainda mesmo que em alguns conventos se dêem de corpo e alma à oração, essa oração é nula, repito. Verdadeira é a oração de quem muito sofre, ou de quem sorri de felicidade. Oração não é palavra, é sentimento. Um olhar da alma, fixo no céu, vale mais que mil rosários rezados rotineiramente. Talvez pelo fato de não ter tido família, tanto preze os laços que entre si prendem os homens: em vendo mulheres que se desprendem das suas afeições menosprezando soluços paternos, desdenhando fraternas carícias, fugindo ao único prazer real da vida para se encarcerarem numa cela, atiradas ao mais ferrenho egoísmo - cela onde tudo se nega, onde se falseiam as leis naturais e onde o homem abdica dos direitos de legítima soberania porque perde a vontade própria -; em vendo a consumação de sacrifícios tais, sofro e sofro muito. Resta-me, entretanto, o consolo de haver salvado de tais sacrifícios algumas vítimas. Tal procedimento valeu-me o ser alvo de grandes ódios, mas o bem deve ser feito e a verdade difundida, sem considerarmos os abismos nos quais possamos cair. Faça-se o bem, que cedo ou tarde se recolhem sazonados frutos.

Não levam os cegos um guia? Pois os sacerdotes são os ungidos do Senhor, a fim de, por bom caminho, conduzir os inúmeros cegos que tropeçam nas paixões e caem nos vícios. Oh! Sim, sim! Esta é a missão dos que se chamam ministros de Deus! Inspira-me, Senhor, para que eu possa cumprir o mandato da tua lei sacrossanta!

E Deus ouve-me, sim; Deus atende-me porque, apesar de me encontrar aqui exilado, muitos são os que me procuram para pedir um conselho nas atribulações da vida; muitas famílias atingem o santuário da paz ouvindo minhas indicações... Inspira-me sempre, Senhor!

Não há muitos meses restituí a calma a um pobre velho que, apesar de pacífico por índole, atingira a meta do desespero. Pai de numerosa prole, não só perdera a companheira de sua vida, enviuvando, como também a maior parte da fortuna, e quase cego, por cúmulo, ficara. Sete filhos a sustentar, dos quais apenas a mais velha das filhas, com a sua vocação para a música e a pintura, utilizava brilhantemente os seus bons quadros na manutenção da família.

Madalena era o consolo e a alegria do velho pai, que se extasiava em ouvi-la cantar.

Por vezes, aprazia-me visitar este amigo na vizinha cidade. Ele é um livre-pensador e eu, sem embargo, lhe admirava o lúcido raciocínio, a paciência evangélica e a resignação cristã: e invejava-lhe também a desgraça, porque o via amado e rodeado de filhos que, à porfia, o acariciavam.

Um dia, ei-lo que me entra em casa arrimado a um dos filhos e cai-me nos braços a soluçar como criança.
  • Que tens? - perguntei, assustado.
  • Ah! roubaram-me a filha querida de minh'alma!
  • Que dizes? Não entendo! Explica-te!
  • Pois não estou dizendo que me roubaram a minha Madalena?
  • Quem?
  • Quem? Esses que se dizem ministros de Deus.
  • Mas, que dizes? Tu sem dúvida estás doente...
  • Não deliro, não. Lembras-te da voz de minha filha, que, quando canta, parece um serafim baixando à Terra, lá dos paramos celestes?
Pois bem, essa voz, querem-na eles para si, e levam-na.
  • Como?
  • Fazendo-a entrar para um convento, porque, dizem, na minha companhia nada aprende de bom, uma vez que sou dos reformistas; poderosa família tornou a peito o caso e minha filha, aturdida e alucinada com os conselhos de um missionário, entrou a dizer que precisava cuidar da salvação de sua alma. E aí tens como a nossa casa, que era dantes um céu, transformou-se num inferno! Tu me conheces, Germano; tu sabes que essa filha é a minha vida e que eu sonhava vê-la casada com um homem digno das suas qualidades; não é que eu a queira por egoísmo, não, que a mim pouco se me daria esmolar à porta de uma igreja, desde que à noite pudesse ouvir-lhe a voz angélica. Mas perdê-la para sempre... saber que vive e que não vive para mim, ah! Germano, eu enlouqueço...
E aquele pai infeliz chorava o pranto horrível do desespero...
  • Acalma-te - disse-lhe -, acalma-te que nem tudo está perdido. Pois que Madalena muito me respeita, falar-lhe-ei a propósito.
  • És a única esperança que neste transe me resta. Se não conseguires dissuadi-la desse plano, sei eu, no entanto, o que hei de fazer...
  • Que farás?
  • Que farei? Mato-me!
Sem perda de tempo acompanhei o pobre amigo, pedindo a Deus me inspirasse para salvar duas vítimas - o pai e a filha, uma vez que esta era também demasiado inteligente para viver feliz num convento.

Quando chegamos à casa do pobre amigo, dois superiores meus faziam companhia a Madalena, que lecionava solfejo a duas suas irmãs, ao mesmo tempo que ensaiava o cantochão.
A rapariga, ao ver-me, empalideceu, compreendendo, com certeza, a missão que ali me levava; os colegas, esses, olharam desconfiados e se dispuseram a sair, não sem que um deles me dissesse:
  • Vede bem o que ides fazer, certo de que vossos passos são de perto espreitados.
  • Espreitem-nos à vontade - retorqui -, mas ficai certos de que a perseguição não me intimida, convicto como estou de que Deus marcha comigo; e quem com Deus navega, seguro porto alcança.
Eu sentia nesse momento aquela força indômita que me avassala nos lances extremos, havendo em mim duas naturezas. No recôncavo da minha aldeia, sou um pobre homem de caráter simples, que se contenta em ver transcorrer os dias monótonos e compassados, fazendo hoje a tarefa de ontem, sorrindo às crianças, perguntando às mulheres o asseio dos filhos, olhando o céu quando o Pintor do Infinito o experimenta em coloridos na palheta do horizonte; ninguém, ao ver-me, batina surrada, triste e resignado semblante, acreditaria que me transformo como por encanto, que estes olhos embaciados adquirem brilho extraordinário. Certo, não pude ainda rever em mim mesmo a força desse olhar, mas compreendo-o, pressinto-o, adivinho-o porque ninguém, jamais, lhe pôde resistir. Tal sucedeu com Madalena, que, uma vez a sós comigo, cobriu o rosto com as mãos e caiu em pranto, soluçante.

Sentando-me a seu lado, tomei-lhe uma das mãos e disse: - Olha para mim!
  • Não posso.
  • Por quê?
  • Não sei, tenho medo...
  • Medo? Medo tens de ti mesma, não de mim.
  • Creio que tendes razão.
  • Também o creio. Fita-me bem, Madalena... Acreditas que cumpro meus deveres como ministro de Deus?
  • Oh! sim, mas a verdade é que a vós, como a meu pai, acusam de seguir secretamente a reforma de Lutero; dizem que me perco e que a salvação está no convento; que é preciso salvar minh'alma. Eu sei que meu pai sofre e o pranto que ele verte me rescalda o coração; mas, entre meu pai e Deus, creio que Deus está em primeiro lugar.
  • Sem dúvida. Mas, acreditas chegar a Deus assassinando teu pai? Sim, porque é preciso saibas que, no dia em que pronunciares o voto, ele se suicidará; estás ouvindo bem, Madalena? Boa maneira, essa, de caminhar para Deus, regando o caminho com o sangue de um ser inocente, ao qual deves a vida..
  • Mas, não lhe restam minhas irmãs? Logo, deixem-me seguir a boa senda.
  • Mas tu não vais pela boa senda, Madalena: a clausura é contrária à lei natural; a mulher não veio à Terra para encerrar-se num convento. Se assim fosse, Deus não formaria o paraíso de que falam as Santas Escrituras, antes teria levantado uma fortaleza onde encerraria a mulher. Muito ao invés, os primitivos casais das distintas raças humanas vieram e tomaram posse dos bosques e dos campos, dos vales e das montanhas, das margens dos rios como das praias do mar e os acordes da vida ressoaram por todos os recantos da Terra, o homem e a mulher se uniram para formar novas gerações que glorificassem o Senhor. O bom caminho, Madalena, não é abandonares o autor dos teus dias nos derradeiros momentos de sua vida, quando perdeu esposa, fortuna, e a preciosa luz dos olhos. Sabes qual seja a boa senda? Eu to digo: é servires de amparo à sua velhice, é alegrares a noite da sua existência com o teu amor filial, é aceitares o afeto de um homem de bem, com o qual te ligues, proporcionando a teu pai um novo arrimo. Esse é o teu dever, Madalena; consagra-te à tua família, que é esse o melhor voto que podes pronunciar.
Que é da tua inteligência, da tua compreensão? Como julgas boa uma religião que te ordena a renúncia das primeiras afeições da vida? Dizem que teu pai é reformista e que na sua companhia se perderá tua alma... Ora, quem melhor que tu pode sabê-lo?

Que conselhos te dá esse pai? Certo, que sejas boa, honrada, laboriosa; que veneres a memória de tua mãe; que estimes teus irmãos; que, se amares, ames a um homem digno de ti, de fazer-te esposa; e mais, que ames os pobres, que sejas indulgente e que, chegada a noite, faças exame de consciência, confessando-te a Deus. Isto diz teu pai e isto poderá perder-te, Madalena? Responde-me logicamente.
  • É verdade, meu Padre; tendes muita razão; crede também que os temo, pois, quando aqui vêm, me desconcertam. A duques de C..., minha protetora e a mais empenhada no meu voto, diz que não abandonará meu pai e, mais ainda, que fará felizes minhas irmãs, desde que eu consinta em professar, porque augura que meu pai e vós, dado o meu caráter um tanto independente, me perderão irremediavelmente.
  • Ninguém se perde, Madalena, quando não se quer perder; de resto, nem teu pai nem eu te guiamos para o mal; é pois, preciso, dado queiras salvar a vida de teu pai, que renuncies a esse propósito. Pensa bem e considera que, logo no dia seguinte ao teu voto, estarás arrependida; que a sombra de teu pai te seguirá por toda parte. Quando te ajoelhares, tropeçarás no seu corpo; dormindo, seu espírito pedir-te-á contas do seu suicídio. Acredita-me, Madalena, não desates os laços que Deus formou. Perderes-te no mundo, quando a tua posição é tão digna de respeito e consideração! Que melhor voto podes fazer a Deus senão prometer-lhe servires de mãe a teu velho pai enfermo e aos teus pequeninos irmãos? Que ocupação mais nobre do que essa de sustentar os passos do ancião que te ensinou a rezar e a bendizer a Deus. Sê razoável, filha minha; cumpre a verdadeira lei de Deus e faze com que teu pai, na triste noite da sua velhice, sorria gratamente ao sentir-se acarinhado pelos raios luminosos do teu amor.
  • É tarde, Padre Germano, porque já empenhei minha palavra.
E para cumprires essa palavra sacrificarás teu pai? Vamos, Madalena, o que eu quero é a vida de teu pai e tu não ma podes negar.

Nesse momento, voltava à sala o meu pobre amigo; vinha só, passo vacilante, qual o da criança que começa a andar. Madalena correu ao seu encontro, e os dois, abraçados estreitamente, confundiram-se em lágrimas.

Quanto a mim, olhava-os extasiado, dizendo no meu íntimo: - Aí está a verdadeira religião: o amor da família, a proteção recíproca, a permuta de ternos cuidados! O pai ensina os filhos a andar; depois, estes lhe amparam os passos e dão-lhe ternos, pequeninos netos, que lhe alegram os últimos dias da velhice! Oh! a família! - eterno idílio do mundo, tabernáculo dos séculos, nos quais se guarda a história consagrada pelo alento divino de Deus! A religião que te não respeita nem considera acima de todas as instituições da Terra, tem menos poder e verdade que o floco de espumas levantado sobre as ondas batidas do mar!

Madalena rompeu o silêncio, dizendo:
  • Perdoa-me, pai; compreendo a minha loucura e ao Padre Germano devo o ter recuperado a razão. Não me separarei de ti; diante de Deus faço o voto solene de ser teu guia e teu amparo, e creio que Deus nos protegerá.
  • Sim, minha filha; Jeová velará por ti; acredita, Madalena, que, consagrando-te aos cuidados da família, terás pronunciado o melhor voto.
O melhor voto, repito, porque a paz e a alegria voltaram a reinar naquela casa. As crianças recobram sua jovem mama, o velho ancião a subentendida companheira, e todos sorriem, e todos vivem.

Nada mais grato, nem mais belo, do que esse grupo que vem visitar-me nos dias festivos, alegrando-me a velha casa. Ao cair da tarde, Madalena e os irmãos cantam no jardim a oração do Angelus e os pássaros alvoroçados repetem - Glória! Seu pai escuta-a comovido e diz-me em voz baixa: - Ai! meu Germano, quanto te devo! Que seria de mim sem ela?!

Graças, Senhor! com afinco me perseguem, acusam-me de tresmalhar tuas ovelhas; mas, desde que aumente o rebanho dos bons cristãos, eu creio, Senhor, que cumpro o meu dever.

Macili
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O Patrimônio do Homem



Senhor! cada dia que passa, cada hora que soa, cada minuto que foge a perder-se na eternidade, mais me convencem da tua grandeza e misericórdia! Senhor! Bendito! Bendito sejas!

Quanto amas o homem e quão mal compreendemos o teu imenso amor!

O tempo - demonstração eterna da tua sabedoria; prova majestosa do teu poder; decifração contínua dos grandes problemas - como tem sido encarado de todas as idades? com um tal ou qual temor supersticioso.

Também, por isso, tem sido simbolizado por esquálido velho que devora os filhos, tudo destruindo: a beleza e a juventude, extinguindo humanos afetos, fazendo caducar as leis e derrubando impérios.
Para o homem, tempo e nada são sinônimos; e, no entanto, a Natureza demonstra, de todos os modos, que o tempo é a supre renovação da vida. Estudando a existência humana, temos que o tempo é a redenção da Humanidade, ou melhor - o único patrimônio do homem.


Pudesse um só indivíduo dispor dos tesouros todos de um planeta, mas, sem tempo à sua disposição, nulo seria o seu poder.

Eu que profundamente tenho estudado nesses livros inéditos, nesses volumes palpitantes - os homens - eu tenho tido o ensejo de apreciar o valor das horas, o que me faz considerar o tempo a apoteose de Deus.

Quantos seres culpados, redimidos pelo evolver dos anos! Quantas almas rebeldes retomando o caminho do Senhor! Por isso, também, acredito que o homem vive eternamente. E, se assim não fora, curto seria o prazo de uma existência para aquele que cai e quer levantar-se.

Dobram os sinos a finados; plúmbeas nuvens tingem o horizonte; os pássaros assustados abrigam-se à copa do arvoredo que vento fustiga; os cães uivam lastimosamente; a tempestade se aproxima e com ela as recordações me assomam à mente... O tempo passou... mas, sem embargo, perdura-me na memória aquela tarde.

Por que estranho mistério, meu querido manuscrito, não tracei nas tuas folhas amareladas as impressões de um fato que fez época na minha vida? Por que me tremeu a mão, sempre que, pensando naquele desventurado, tentava algo escrever? Por que esse medo, como se fora eu o criminoso? Por que, nas minhas preces, ao pronunciar-lhe o nome, a voz se me extingue na garganta e emudeço, temendo que as paredes do templo repitam as minhas palavras?

Pela primeira vez em minha vida revelei-me fraco, mas quero vencer minha fraqueza; quero acrescentar uma página ao livro das minhas confissões e lembranças; quero que os homens saibam a história de um espírito rebelde, cujo verdadeiro nome nem a ti mesmo, manuscrito querido, devo confiar.

Mas, quero consignar o fato para demonstrar que o tempo não é o deus Saturno devorando ferozmente os filhos, e sim o sopro de Deus a fecundar os universos do Infinito.

Chove agora, a água vergasta os esverdeados vidros da minha janela e as gotas como que me dizem: lembras-te?

Ah! se me lembro... Era uma tarde de Primavera, e a estação das flores, qual mulher caprichosa, toda se envolvera num manto de Inverno: chovia a cântaros e nuvens pejadas de eletricidade deixavam raios de fogo cair sobre a terra; o furacão impetuoso derrancava troncos seculares, que pelo espaço rolavam com a rapidez do pensamento; as casas da aldeia tremiam qual se tivessem febre; tetos a fundirem-se gemebundos e o vento - insaciável monstro - tudo devorando na sua veloz carreira. A igreja regurgitava de fiéis, que oravam aconchegados, pedindo misericórdia a Deus, enquanto eu, no meu oratório, prosternado, lhe implorava que, se algum ser daquela aldeia houvera de sucumbir naqueles cruéis momentos, fosse eu escolhido como árvore que era seca, incapaz de dar sombra, e poupasse outros seres - árvores frondosas, a cuja benéfica sombra se abrigavam duas gerações.

Pensava nos marinheiros a lutarem com as ondas enraivecidas; contava, recontava sem poder somá-los, os gemidos de agonia que naqueles críticos momentos deveriam exalar centenas de famílias arruinadas pela violência da tempestade, e chorava diante de infortúnios tantos, de tantas perdidas esperanças, como de tanto trabalho perdido... Pobres lavradores!

Repentinamente, aparece Miguel, o velho companheiro, pegando Sultão por uma orelha e dizendo-me ofegante:
  • Ah! Senhor! Está maluco o Sultão, irremediavelmente doido! A bem dizer, não sei o que tem este animal; o certo é que invadiu a igreja e começou a puxar as mulheres pelas saias, a arranhar o casaco dos homens, correndo de um para outro lado, ladrando desesperadamente; por fim, atira-se a mim e quase me derruba; mas, ainda bem que a custo consigo trazer-lhe aqui.
Sultão estava encharcado dágua e barro e, tomando-lhe nas mãos a cabeça, vi que dos olhos lhe manavam lágrimas.

Como que compreendendo a narrativa de Miguel, o pobre animal se aquietara, olhando-me tristemente; e eu, que o estimava como íntimo amigo, acariciei-o, dizendo-lhe: - “Por que assustas a gente, Sultão? Por que aborreces a Miguel que contigo reparte a comida? Vamos, pede-lhe perdão...”
Miguel começou a rir e deu algumas palmadinhas na cabeça de Sultão, enquanto ele, assim acariciado, se tomava de brios e começava a ladrar e a saltar sobre nós, ao mesmo tempo que nos puxava pelas vestes. Ora escavava o solo, ora corria até à porta; depois, de pé, patas apoiadas ao peitoril da janela, batia nas vidraças como querendo despedaçá-las e volvia a puxar-me pela manga do hábito. Ao ver tanto empenho do animal, acabei por dizer a Miguel: - “com certeza Sultão viu algum infeliz e vem avisar-nos para que o salvemos.” Ao ouvir tais palavras, Sultão recomeçou os saltos e correrias, até que tomei da capa, enquanto Miguel, assombrado, me considerava louco em expor-me ao temporal.
  • Mas, aonde vai o senhor com esse tempo? - dizia.
Vamos aonde me chama o dever; nem devemos ser nós, homens, menos generosos que os cães.
Miguel, por única resposta, foi buscar seu velho capote e ofereceu-me o braço para que nele me apoiasse.

E seguimos Sultão, o qual bem depressa se esgueirou pelas escarpas de uma furna, dando-nos apuros mil para galgar a montanha. À meia encosta, o animal deteve-se olhando uma nova furna, a ladrar desesperadamente. Também nós paramos, e Miguel, depois de escutar por alguns momentos, disse: - “Parece haver aí alguém que geme.” Entretanto, o vento que sibilava, naquelas brechas, nada deixava ouvir-se.

Sultão, a fim de convencer-nos, sondou o terreno, fez vários rodeios e começou a descer à nossa frente, pois que o seguimos guiados e sustidos certamente por algum anjo de Deus, que de outro modo não venceríamos tantas dificuldades.

Baixados que fomos a um recôncavo pedregoso, deparou-se-nos um homem gemebundo; levantamo-lo; ei-lo que, ao sentir-se amparado, murmurou; - “Graças a Deus!” - para desfalecer logo sem sentidos.

Carregando-o, de penosíssima caminhada voltamos à igreja, onde o depositamos sobre um banco da sacristia, até que, com os socorros adequados, voltou a si.

Abrindo os olhos, fitou os aldeães que o cercavam e, levantando-se lesto, lhes disse: - “Ide-vos daqui; não sei se estou morto ou vivo, mas, em todo caso, quero estar só. Ouviste bem? Ide.”

Fiz evacuar a sacristia e permaneci só com o recém-vindo e Sultão. Este, como compreendendo que a sua tarefa terminara, deitou-se para repousar das fadigas.

Sentei-me ao lado do enfermo, dizendo-lhe:
  • Pela firmeza com que falais, depreende-se que não estais machucado, graças a Deus.
  • Nada há na Terra que possa ferir-me o corpo, mas, em compensação, tenho ferida a alma; dizei-me: estou morto ou vivo?
Pergunto, porque noto em mim uma grande confusão de ideias.
  • Estais vivo, graças a Deus.
Não deis muitas graças, Padre, porque melhor seria que me matásseis... Sabeis acaso para que quero a vida?
  • Para quê?
  • Para vingar-me, para lavar em sangue uma ofensa recebida.
  • Cometendo, talvez, um assassínio... bom modo de lavar ofensas!
  • Que quereis? O primeiro é o primeiro, e as manchas da honra só em sangue se lavam. Contarei minha história, pois para isso aqui estou. Não acrediteis fosse a casualidade que me conduziu àquele precipício; eu quis apenas abreviar caminho, quando ali me despenhei. Ah! Sofri, decerto, lá em baixo, todos os tormentos do inferno! Quanto mais procurava galgar, mais escorregava; quanto mais procurava abrir caminho, mais terreno perdia; e faltavam-me as forças, a cabeça mal se erguia daquela almofada de pedras, enquanto a ideia de morrer sem confissão me mortificava, tanto mais quanto, só para confessar-me eu aqui vinha. Há muito que vos conheço e não queria despedir-me do mundo sem convosco confessar-me. Pesadíssimo é o fardo de minhas culpas e só um homem como vós poderia ajudar-me a carregá-lo. Apenas dois objetivos tenho hoje na vida, a saber: confessar-me hoje e vingar-me amanhã.  
  • Pois nem vos confessareis, nem vos vingareis: estais enfermo, isso sim, que os olhos bem revelam o ardor da febre; vosso semblante e vosso olhar desvairado dizem-me que delirais; pois bem: vou dar-vos a minha cama para repousardes, e, quando houverdes recobrado a saúde, prosseguireis na viagem. Desde já vos advirto que não quero ouvir a vossa confissão, pois a mim me horrorizam os segredos da Humanidade. Quando penetro nesta igreja, tenho medo, porque seus ecos me repetem os queixumes da mulher adúltera, os lamentos da mulher matricida, as imprecações dos assassinos, ao passo que eu receio ficar louco, retendo na memória o horror de tantos horrores.
O doente, passeando o olhar em torno, disse em tom de amargura:

Tendes razão; quantos segredos guardarão essas paredes? Bem triste é a história da Humanidade!

- Segui-me, pois necessitais de repouso, porque estais enfermo, crede-me.

Pois bem, eu vos seguirei, mas amanhã haveis de ouvir-me, por bem ou por mal.

Conduzi-o ao quarto, fi-lo tomar alimento, ajudei-o a despir-se e recostei-o no meu leito; em breve, dormia um sono agitado, contemplando-o eu detidamente. Era homem dos seus cinqüenta anos, fisionomia arrogante, mesmo dormindo, de orgulhosa altivez. Retirando-me ao oratório, entreguei-me à meditação e, qual réu que se preparasse para o suplício, tremia na masmorra pelo despontar do dia.

A mim mesmo perguntava quem seria aquele homem; que novos crimes iria conhecer, que novos inimigos iria criar-me. Sim, porque eu não transigiria, jamais, com a hipocrisia; não entregaria, jamais, um criminoso à Justiça, sabendo que, se um corpo se destrói, um espírito se entrega à perturbação. Prefiro, pois, trabalhar pela regeneração desse espírito, com todas as forças de minhalma.
Quero a correção do criminoso, mas não quero esses tormentos horríveis - os trabalhos forçados; quero fazê-los pensar e sentir o que não está codificado nas leis terrenas e eis por que fujo de entregar-lhes novas vítimas. Esta atitude, no entanto, acarreta-me grandes responsabilidades... É exato que até o presente todos quantos arrebatei aos tribunais mundanos se regeneraram; mas, se um que outro, devido à minha tolerância, viesse a praticar novos crimes? Ah! Senhor! faltam-me as forças, tende misericórdia da minha fraqueza. Quando se me faz uma confissão, se devasso uma existência de horrores, identifico-me com a pobre criatura que ma revela, sofro-lhes os remorsos, padeço a agonia de suas vítimas, não sei o que em mim se passa, sombras hórridas me perturbam o sono.


As horas correram, até que a aurora purpurizasse o horizonte; pássaros trinaram em honra ao pai do dia e este lhes respondeu com seus luminosos raios. O doente despertou, dizendo-me com acentuada satisfação:

Que bem dormi, Padre! Estou perfeitamente bem disposto, e até - coisa rara - sonhei com minha mãe... Veja o que são sonhos!... Vi-a tal qual em vida. - E logo acrescentou: - Preparemo-nos para sair, não quero falar aqui na igreja para que suas paredes não repercutam o eco da minha voz. Vamos para o campo, onde, no dizer de minha mãe, o homem está mais próximo de Deus.

Eu olhava o interlocutor como réu que fitasse o carrasco: o olhar daquele homem tinha uma fereza extraordinária, sem que fosse ele um ser repulsivo; ao contrário, atraente era a expressão do seu rosto, e o porte distinto revelava alta linhagem social.

Fi-lo tomar algum alimento, que ele mastigou maquinalmente, dizendo-me em tom seco:
  • Padre, apressemo-nos, uma vez que sou de perto perseguido. Jamais fui traidor e não quero pagar a vossa generosidade com os transtornos de uma prisão, pois a verdade é que ainda não sabeis quem está em vossa casa.
  • E eu de bom grado vos deixaria partir sem o saber, apenas recomendando fizésseis sempre a outrem o que ontem por vós fizemos nesta aldeia.
Por única resposta saiu do aposento, afagando Sultão de passagem. O cão marchou a seu lado, satisfeito, e fomos todos a caminho do campo, silenciosos.
Uma vez fora da aldeia, o desconhecido fitou-me, dizendo:
  • Melhor que vós, conheço estes sítios; conduzir-vos-ei, portanto, a lugar no qual ninguém poderia interromper-nos.
Assim foi, efetivamente. Numa depressão de terreno nos sentamos, e Sultão, qual avançada sentinela, permaneceu ao largo.

Como sempre, roguei a Deus inspiração e não tardou aquele singular estremecimento do meu ser, como se mão de fogo me pousasse sobre o crânio; as ideias adquiriram lucidez: o velho cura da aldeia sentiu-se rejuvenescido e forte, e vendo o companheiro todo absorto em profunda meditação, disse-lhe:
  • Cumpra-se o sacrifício, mas, sobretudo, dizei-me absolutamente a verdade.
Os homens da minha tempera não mentem nunca. Olhai-me bem. Não adivinhais quem sou? Pois meu nome deve ter chegado muitas vezes aos vossos ouvidos. Sou o grão-duque Constantino de Hus.

De fato, esse nome era-me bem conhecido por sua triste nomeada... Confesso que por momentos tive medo, horror, espanto; nuvem passageira, contudo, e bem depressa se apoderava de mim veemente desejo de saber a história daquele homem, que me afigurava náufrago perdido no raivoso oceano das paixões. Do fundo desse mar, propus-me arrancá-lo a todo o transe e, forte, e animado, disposto a converter o mundo inteiro, cheguei-me mais para ele, tomei-lhe uma das mãos, encarei-o fixamente e disse:
  • Fala! Conheço-te e de há muito me compadeço de ti. –  Tínheis então compaixão de mim? - replicou com assombro.
  • Sim, lastimava-te... e como não havia de fazê-lo, se eras mais pobre que o último dos mendigos?
  • Pobre, eu? - retrucou com ironia. - Mas, sem dúvida ignoras que em meus domínios jamais se põe o Sol...
  • O Sol não pode ocultar-se em lugar onde jamais haja brilhado, mas, começa a tua narração.
O Duque olhou-me e falou:
  • Não cheguei a conhecer meu pai, que morreu num combate antes do meu nascimento; foi precisamente por ocasião dos seus funerais que minha mãe me deu à luz. Segundo contam, colocaram-me sobre o túmulo de meu pai, enquanto os súditos me aclamavam chefe único da minha ilustre família, que não contava outro varão, mortos que foram em combates os outros todos. Agora reconheço que minha mãe era uma santa mulher e recordo que muitas vezes me dizia: - Antes quisera levar-te comigo ao túmulo, para que teu nome se perdesse nas sombras do sepulcro.
  • Vê-se que tua pobre mãe via claro o teu desastrado futuro. Prossegue.
  • Quando ela expirou, alegrei-me, porque era o único ser que me contrariava os desejos; e assim, aos catorze anos, fiquei livre de toda a tutela, com direito à vida e aos bens dos meus vassalos. Jamais conheci barreira que se antepusesse aos meus desejos; minha vontade soberana era sempre cumprida, e ai do ousado que tentasse contrariá-la! Para haver um herdeiro do meu nome, consorciei-me com uma jovem de real estirpe. Visando unicamente a perpetuar a raça, utilizei-me das mulheres: a nenhuma, entanto, amei; minhas filhas apenas me mereceram respeito, por trazerem meu nome.
Minha primeira esposa deu à luz uma menina, e de tal forma me indignei que rapidamente se foi ela deste mundo, compreendendo meu médico que eu tal coisa desejara. Casei-me segunda e terceira vez, repetindo-se a mesma história; queria um filho, esse filho nunca veio.
  • E como querias que viesse, desgraçado? Para a árvore da iniqüidade não há rebentos na Natureza!
  • Podeis afirmá-lo, Padre, que a trinta e seis jovens, filhas de vassalos meus, obriguei a cederem aos meus desejos! Umas foram estéreis, outras sucumbiram de desgosto; algumas conservaram de mim a lembrança de frutos efêmeros, mal extintos ao nascer. A verdade é que nenhuma das filhas bastardas sobreviveu. Invejei, então, o último dos meus servos, vendo-o brincar com os filhos! Todos tinham um herdeiro de seus nomes; só o meu estava destinado a extinguir-se.
  • Porque necessário é que esse nome se extinga; porque eras filho de uma família-execrável; porque onde tu e os teus chegastes, apenas um rastro de sangue e lágrimas deixastes! Eis por que é preciso apagar teu nome do livro da História, para que os povos se não envergonhem. Mas, prossegue, que ainda tudo não me disseste.
  • Sim, alguma coisa me resta dizer-vos. Três filhas me ficaram dos meus três matrimônios; se não as amei, respeitei-as, contudo; e, para que com suas fraquezas e leviandades (as mulheres são todas as mesmas) não maculassem meu nome, fiz com que duas delas entrassem para um convento, mantendo a meu lado a mais velha, para que me fizesse perpetrar um novo crime. E o caso é que um homem socialmente mais poderoso do que eu seduziu-a, e depois de seduzi-la, como casado que é, abandonou-a; certo, ao demais, de que eu, conhecedor do fato, me vingaria, tratou de repelir-me de sua convivência, acusando-me de chefiar uma sedição e despojando-me da maior parte dos meus bens.
Já sabedor da minha desonra, reuni meus servos e raptei o ladrão que ousara chegar até minha filha, para que viesse, à minha residência habitual, provar que eu era um traidor. Ele aceitou a luta que lhe mandei e veio - que a chamamentos tais não há homem que se negue -, mas veio com forças poderosas, muito superiores em número às hostes que defendiam me territórios.

Compreendi que ele de pronto se apoderaria do castelo e mandei-lhe uma mensagem, na qual dizia que eu próprio lhe atiraria as chaves da fortaleza à porta da sua barraca. Não me demorei a cumprir a palavra.

Ele armou a tenda na orla do rio e eu subi à torre mais alta do castelo, acompanhado de minha filha, prestes a dar à luz o fruto da sua e minha desonra; uma vez no alto, suspendi-a com mão forte e despenhei-a no vácuo. Seu corpo baqueou nas águas da corrente e eu gritei três vezes: “aí tens as chaves da fortaleza de Hus!” Sem perda de tempo, seguido do mais valente dos meus capitães, fugi por uma galeria subterrânea, enquanto meus soldados defendiam palmo a palmo a moradia de seu amo.

E sabeis por que fugi? - por querer que aquele homem sofresse a mesma dor que me infligira; queria que a minha vingança se completasse olho por olho e dente por dente; queria que uma de suas filhas fosse desonrada como o fora a minha, o que consegui e lho fiz saber, ao mesmo tempo que o raptava para um duelo singular, nas vizinhanças desta aldeia. Ele, porém, temeu do meu braço; não veio, mas mandou emissários no meu encalço, dos quais tenho habilmente escapado. Pois bem: aquele que não quer morrer como nobre, morrerá como os covardes e traidores, ferido a espada. Irei daqui à sua procura e mata-lo-ei para acabar, depois, com uma vida que me acabrunha. Depois, meu Padre, sereis vós a única pessoa a orar por mim, e decerto não negareis um pedaço de terra sagrada ao cadáver do suicida.

Muito se fala de vós e eu vos procurei porque necessito, ao morrer, de alguém que me prepare para essa viagem, cujo termo ignoro. Dizem que há um inferno; a ser exato, eu irei direto a ele; e a ter de ser amaldiçoado na Terra, quero ao menos receber a excomunhão de um homem verdadeiramente santo como se propala que sois.

Por mim, eu estava absorto; olhava aquele homem e via desfilar ante mim pálidas sombras sob a forma de mulheres jovens e belas, estendendo umas a destra ameaçadora sobre a sua cabeça, chorando muitas, e outras lhe mandando um ósculo de paz. Maravilhado, atônito, subjugado, compreendi que estava rodeado de seres espirituais. Uma sombra lutuosa acercou-se do Duque, chorando desconsoladamente, e reclinava a fronte na cabeça do pecador. É esta a alma da sua pobre mãe, pensei comigo: só uma mãe pode perdoar a iniqüidade deste homem. A sombra correspondeu ao meu pensamento, porque redobrou carícias e estreitou-me as mãos num gesto súplice... Senti, então, o que jamais sentira; pensei em minha mãe, que jamais vira; o coração se me confrangia dentro do peito e eu quase invejei a sorte daquele desgraçado, porque, apesar de tudo, tinha ainda o amor de sua mãe.

O Duque olhava-me e, estranhando sem dúvida o meu silêncio, disse com impaciência:
  • Pois bem, Padre; que dizeis?
Ouvindo-o, despertei para a vida real, continuando a ver apenas sua mãe, que ao ombro se lhe apoiava.
  • Acaso, lembras-te às vezes de tua mãe?
  • Sim, muitas vezes... Mas, por que mo perguntais?
  • Ainda agora, quando me fitavas, pensavas nela?
  • Sim. Há alguns dias já que sua lembrança me não deixa. É justo que, tencionando deixar o mundo, pense naquela que a ele me trouxe. Pobre mulher! quase lhe assistia razão, porque, se eu não deveria deixar um herdeiro do meu nome ilustre, melhor fora que a houvesse acompanhado... Mas, enfim, o que está feito está feito; e agora só espero de vós duas coisas.
  • Quais?
  • Vossa excomunhão - porque a bênção é impossível - e a promessa formal de que me enterrareis em terra sagrada, colocando uma cruz sobre o meu túmulo.
De acordo, quanto ao último pedido; de passagem te advirto, porém, que para mim toda a terra é sagrada, uma vez que toda ela recebe o divino reflexo do olhar de Deus; quanto ao primeiro pedido, a ele não posso aceder, porque não há na Terra homem nenhum com poder suficiente para abençoar a outrem em nome de Deus, nem para anatematizá-lo cumprindo uma ordem do Eterno.
  • Então, para que servem os sacerdotes?
  • Quando bons, para consolar e instruir a Humanidade, para incitar o homem no progresso eterno da vida, para conduzi-lo pelo caminho mais curto à terra prometida. Dia virá, porém, em que os sacerdotes não serão necessários, porque todo homem cumprirá o seu dever e esse é o verdadeiro sacerdócio; não obstante, enquanto não chega esse dia formoso, um certo número de homens, votados ao estudo e às práticas piedosas, serão um freio para os povos, tanto quanto, às vezes, um motivo de escândalo, porque em nossa mal constituída sociedade os extremos quase sempre se tocam.
  • Mas, se não quereis absolver-me nem condenar-me, que me direis, então? Que vos parece a minha vida?
  • Que quereis que ela me pareça, infeliz? Um tecido de iniqüidades! uma serie de crimes horríveis! mas, nem todos oriundos de ti mesmo, obedecendo muitos deles aos vícios desta época. Dentro de alguns séculos não haverá criminosos com tu. Os nobres não possuirão tão fatal poderio, os servos serão remidos pelo progresso, as mulheres terão a noção dos seus deveres e reclamarão seus direitos, deixando de ser o que hoje são - o joguete da libertinagem masculina. Vieste à Terra num mau tempo, desgraçado, e teu espírito, propenso a cometer toda espécie de desatinos e atropelos inconcebíveis, satisfez seus iníquos desejos, porque o meio cooperou para a tua perdição.
  • E que haverá depois de tudo isso, Padre?
  • Que há de haver? - o progresso eterno, porque razão natural no-lo dita. Tu e eu nascemos na mesma época, se bem que em classes distintas; mas a casta sacerdotal não é privilegiada e bem sabes que muitos são os sacerdotes que abusam. Por que nasceste tu com pendor para o mal e eu para o bem? Por que morrerás tu amaldiçoado, sem que alguém verta uma lágrima sobre tua campa, ao passo que eu serei enterrado por todo um povo que chorará minha memória? Por que te entregaste ao turbilhões das paixões, enquanto eu soube conter as minhas? Por que esse privilégio a meu favor, vindo nós ao mundo nas mesmíssimas condições, se nascemos ambos de mulher? Por que, para ti, todos os estímulos do prazer e do mundo - e para mim toda a cordura e reflexão, todos os meios, em suma, para trilhar o verdadeiro caminho?
A não termos outra existência, por que hás de ser desventurado e eu ditoso? Pode atribuir-se a Deus semelhante injustiça?

Não; não se lha pode atribuir; logo, nossa vida deve continuar, porque, se não continuasse, eu negaria a existência de Deus, e esta é inegável, e a própria Criação no-la demonstra.

Perguntas que há depois de tudo isto? Há a vida eterna e o progresso indefinido do Espírito. Tu não podes deixar de ser a execração universal, ao passo que eu, teu irmão, filho de um mesmo pai, porque somos ambos filhos de Deus, eu sucumbirei rodeado dos meninos de minha aldeia, chorado por muitos homens honrados.

Tens, pois,de engrandecer teu espírito, porque o mal não é eterno na Criação. Deus cria e não destrói; conseguintemente, o Espírito tem de harmonizar-se com o Criador, visto como, ser pensante, entidade inteligente, é complemento da obra divina.

Tu viverás, pois, e pagarás uma por uma as dívidas que contraíste, até chegar o dia de te tomares senhor de ti mesmo; hoje escravo de tuas paixões, amanhã serás delas senhor e as dominarás com previdência, tal como tenho as minhas dominado.
  • Dizeis que viverei? Que viverei! E conservarei a lembrança da minha existência, desta existência que tanto me acabrunha. Ouvirei sempre, sempre, essas vozes longínquas que constantemente me dizem - maldito, maldito sejas.
  • Não, não as ouvirás; Deus é misericordioso para os arrependidos; se quiseres, desde hoje mesmo podes recomeçar tua nova existência. Renuncia a esse nome que tantos crimes te há feito cometer, outorgando-te tão odiosa celebridade; deixa que se extinga o nome da tua raça, renasce novamente, e se ontem foste o verdugo da Humanidade, amanhã quem sabe? alguns pobres, agradecidos, espargirão flores sobre a tua sepultura.
  • Quereis que me recolha a um convento?
  • Não. Quero que trabalhes, que sejas útil aos desgraçados, porque o trabalho é a oração da Natureza.
  • Mas, falando-vos, esquecia-me que algo tenho a fazer ainda...
  • Nada mais te resta a fazer, e, se a mim faltam poderes para perdoar-te, como para condenar-te, eles me sobram, contudo, para impedir que cometas um duplo crime. Pensa no amanhã, já que a alma de tua mãe aqui te conduziu para iniciares a tua regeneração.
Restam-te, porventura, alguns haveres?
  • Sim, sim; ainda tenho alguma coisa.
  • Pois bem: hoje mesmo partirás daqui e da melhor forma possível apurarás tua fortuna; farás constar (com dinheiro tudo se consegue) que foste assassinado por salteadores, que até o cadáver te consumiram, o que de alguma sorte as guerras e correrias atuais favorecem; mudarás de fisionomia com uma tinta cobreada que te vou fornecer e depois voltarás para este sítio, onde há campos férteis, que apenas esperam bons lavradores para produzirem cem por um, e empregarás, finalmente, nas fainas agrícolas, muitos dos meus pobres camponeses, que só desejam trabalho. Tu também lavrarás a terra, que bom é que a regue com o seu suor, quem tantas vezes regou-a com o sangue e com as lágrimas de suas vítimas. Confio na tua palavra, e, se não voltares, não serei eu o prejudicado e sim tu. Se matares esse homem, suicidando-te em seguida, teu Espírito há de sofrer horrivelmente ao peso de todas as agonias que infligiste às pobres raparigas mortas de dor e de vergonha. Se, ao contrário, voltares, prepararás tua alma para uma existência muito mais tranqüila. És livre na escolha.
O Duque levantou-se, dizendo:
Voltarei, porque, se hei de viver eternamente, basta de sofrer.
E, embuçando-se na sua capa, lá se foi, lesto, enquanto a sombra de sua mãe com ele desaparecia.

Ao ficar só, chorei esse pranto d'alma, que, qual chuva bendita, fertiliza o nosso sentimento. Entrevi, longínquas, novas perseguições à minha pessoa, porque era um réu de alta nobreza que eu arrebatava à Justiça do Estado... Mas, que me importava a mim, se com isso evitava dois crimes e, não só isso, incutia o pensamento da própria cura a um pobre louco de nascença?

Dias, meses se passaram, até que uma tarde um aldeão veio trazer-me um envelope com uma carta do Duque, na qual me anunciava sua próxima chegada, advertindo-me que, segundo meu conselho, havia deixado de pertencer à raça branca.

Um mês depois, chegou o Sr. de Hus pedindo-me hospitalidade, acompanhado do mais fiel dos seus servos, que, como ele, parecia um etíope.

E não era o mesmo, o Duque: cabelos cortados, mãos enegrecidas, porte humilde, fisionomia vulgar, tudo, enfim, matara nele os últimos vestígios da Casa de Hus.

Ao ver-me, saltou-me aos braços e me disse ao ouvido:
  • Confesso que, mais de uma vez, vacilei em vir; mas, triunfastes por fim; posso assegurar-vos que foi a única vontade que sobrepujou a minha.
  • Demos graças a Deus, senhor João, nome que, se vos praz, adotareis.
  • Convenho. Agora, todos os homens são iguais para mim. Dizei-me o que devo fazer.
  • Já vos tracei o meu plano, segui-o, se vos aprouver, que eu vos chamei para meu lado não para que vivêsseis submisso, mas para vos salvar de um duplo crime, para lavrardes a terra, e, talvez, colherdes os frutos do céu.
Quatro anos depois, por uma formosa tarde de Primavera, alguns camponeses desolados vieram comunicar-me que o Sr. João estava moribundo. Acompanhei-os em direção à Abadia de Santa Isabel, convertida em granja-modelo. O trabalho embelecera aquele vetusto e ruinoso edifício, onde uma porção de famílias encontrava agora os meios de subsistência.

Completa desolação reinava na granja: os homens falavam baixinho, algumas mulheres choravam e outras prendiam os filhos para que não fizessem barulho, perturbando o repouso do Sr. João.

Quando penetrei no quarto do enfermo, ele despertou e, tomando me uma das mãos, disse em tom solene:
  • Padre, vossa profecia vai cumprir-se: vou morrer; porém, serei chorado; vejo a perturbação dessa pobre gente; alguns gemidos chegam até mim... Ah! como é bom ser amado! Sobre a mesa encontrareis meu testamento. Meus colonos são os meus herdeiros. Ah! Padre Germano, por que não vos conheci eu desde que nasci?
Que bom é ser bom, meu Padre...
E reclinando a cabeça em meus braços, expirou.


***
Minha profecia realizou-se, porque aos ombros dos camponeses lá se foi carregado o último dos duques de Hus, cuja sepultura ficou juncada de flores. Umas quantas famílias bendiziam-lhe a memória e um Espírito transviado terá começado a conhecer os seus erros.


Homiziei um réu, arrebatei à justiça humana um criminoso, porque não quis despojá-lo dessa riqueza - O tempo!

Perdoa-me, Senhor! Acusam-me, é certo, de transgredir as leis da Terra, mas eu creio firmemente que não violo as tuas...

Macili
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As Pegadas do Criminoso





Estou triste, Senhor, muito triste... Fiquei tão só!...

Sultão, o fiel Sultão, companheiro de uma parte da minha vida, posto que alcançasse longevidade extraordinária, foi-se, finalmente, deixando-me sozinho. Fui eu quem primeiro o acariciou ao nascer, e também fui eu quem lhe amparou a cabeça sobre os joelhos, no momento extremo da partida.
Pobre animal! Pesa dizê-lo, mas é a verdade - achei num cão o que nunca pude encontrar num homem.


Quanta lealdade, cuidado, solicitude!

O pobre Sultão dormia de dia e raras vezes à noite, salvo, quando enfermo. Se algumas vezes Miguel e eu dormíamos até mais tarde, era de ver-se a delicadeza com que ele nos despertava, puxando-nos as cobertas. Se nos meus passeios pelo mato acontecia adormecer, depois de meditar, era ele quem, ao aproximar-se a noite, me despertava.

Parecia adivinhar sempre os meus desejos! Não tinha ele por hábito entrar no cemitério; ao contrário, ladrava impaciente sempre que avistava o coveiro; mas depois que ela morreu, a jovem pálida dos cabelos negros, ali penetrou comigo por ocasião do seu enterro e, por último, quando se sumia, Miguel comentava sorrindo: - “Há de lá estar com certeza.” Aquele lá, era a sepultura dela.
Efetivamente, aí o encontrava sentado junto à lousa, por trás da cruz. Ao ver-me, corria e ambos nos encaminhávamos para tumba que encerrava todos os amores e felicidades da minha vida.


Ah! Sultão! Sultão! que maravilhosa inteligência possuías! Quanta dedicação te merecia a minha pessoa! Perdi-te, e perdi em ti o meu melhor amigo!

Outrora, quando me recolhia ao meu tugúrio; quando, prosternado ante o oratório, rezava com lágrimas; quando lamentava as perseguições que eu sofria, era ele quem me escutava imóvel, sem nunca se aborrecer da minha companhia. Seu olhar buscava sempre o meu e, quando às portas da morte, vi-o reclinar a cabeça em meus joelhos, buscar o calor do meu corpo, foi quando no seu olhar se extinguiu a chama misteriosa que arde em todos os seres da Criação.

Agora, sei que estou só; o pobre Miguel é máquina que funciona quando a faço funcionar. Em Sultão, ao contrário, havia iniciativa, ação constante, e, se algumas boas obras pude fazer na vida, foi ele o primeiro a impelir-me, dizendo com os seus afagos e inteligentes olhares: - “Corre, porque é preciso salvar um homem...” E eu corria pressuroso, alentado pelo desejo de praticar um benefício.
Agora, ninguém me chama quando desperto, ninguém me alegra, tenho frio n'alma e frio intenso; ao entrar em casa, tudo permanece silencioso. O velho Miguel, ocupado no jardim, aparece se o chamo; senão... nem meus passos ouve e prossegue na sua ocupação favorita. Diante da janela, então, contemplando o céu, enquanto mil lembranças me afluem à mente... longe diviso alguns seres que me dirigem um olhar de gratidão; perto, porém, os implacáveis inimigos que me perseguem e acusam de apóstata, traidor da Igreja e do Estado. Não fora um crime e a estes eu lhes diria: - “Matai-me, saciai vossa cólera neste pobre velho, ao qual já escasseiam forças para lutar com a Humanidade.” Não o farei, contudo, porque a vida é um depósito sagrado e nós não podemos dispor de bens que nos não pertencem. De resto, eles seriam criminosos e eu homicida, porque o homem não vem ao mundo para matar. O quinto mandamento da lei de Deus, diz - Não matarás. É, pois, segundo esse preceito divino, que tenho feito tudo ao meu alcance para evitar os grandes homicídios sociais.

Aí está por que me acusam e até - o que mais me dói, Senhor - me chamam avarento, acreditando fosse eu herdeiro do último duque Constantino de Hus.

O tempo, sacerdote misterioso, esse grande matemático que soma todas as contas, matemático dos séculos que decifra e resolve todos os problemas; esse agente do passado disse aos homens que o duque de Hus não morreu às mãos de incógnitos assassinos; mas, ao contrário, que morreu tranquilamente em seu leito e que seu corpo repousa em humilde sepultura, sombreada pelos ciprestes e perfumada de flores semeadas por mãos agradecidas. Sabe-se, igualmente, que os rendeiros de “Mestre João” compartilharam sua herança, mas o que se não concebe é que o salvador nada herdasse, coligindo-se que a maior parte dos bens me fosse entregue antes da sua morte.

Pobre Humanidade, que não acredita no sacrifício sem a imediata compensação! Não se podem conformar com a ideia de que arriscasse a uma prisão infalível, quiçá à morte, só para fazer penetrar na senda da virtude um desgraçado criminoso!

A razão terrena, atrasadíssima que é, fundida no envilecimento, submersa no egoísmo, concatenada pela mais completa ignorância, tudo vê por um prisma mesquinho; para ela não há mais que o mercantilismo, o negócio, mais a usura: emprestar um para cobrar cem. O homem ignora que a alma vive para além da campa e acredita que na Terra tudo começa e tudo acaba, esforçando-se, portanto, na compra de efêmeros gozos, para uma única existência.

Eu, porém, vejo mais longe e por isso o ouro me não seduz; não sou virtuoso, não; mas sou razoável, essencialmente racionalista; não busco a santidade, mas o progresso, porque, em suma - que é a santidade na Terra, segundo a consideram as religiões? É a intolerância de um homem, é o aniquilamento de um corpo, é a postergação de todas as leis naturais! E aí está a santidade dos homens! Poderá tal santidade ser grata aos olhos de Deus? Acaso se comprazerá Ele vendo seus filhos lutarem como feras sedentas?

- Não! Se Deus é amor e justiça, como há de querer que o adorem com cruentos sacrifícios? A Deus - verdade essencial com atos de verdade devemos adorar. Não o querem compreender assim, contudo, porque a generalidade dos seres denomina racionais não se convence que haja outros homens que devassem e descubram a vida universal - vida que pressinto, vejo e toco, sentindo-a dominar em mim mesmo, a reanimar-me não só o abatido corpo como também o alquebrado espírito.

Sim, quando circunstâncias prementes me arrojam na corrente impetuosa do mundo; quando a perseguição dos homens aos lábios a taça da amargura; quando trago, até às fezes, o amargo fel da vida, contemplo a Natureza, vejo em tudo a renovação e em mim a morte, reflito e digo: - Eu também, átomo integrante da Criação, estou sujeito à lei da eterna reprodução! Viverei, porque tudo vive! Progredirei, porque tudo progride! Creio em ti, Senhor, adoro-te na tua obra imensa e sigo, quanto em minhas forças cabe, a tua formosa lei, para que possa algum dia penetrar no teu reino!
Mas ah! quantas angústias, quantas agonias me custa esta existência, tão breve para o prazer quão longa para a dor! Jamais termina o sofrer, por isso que uma boa ação me deixa sempre uma herança de lágrimas. Eu disse que o duque de Hus morreu tranquilo no seu leito, ao passo que eu... não sei ainda como morrerei.


Dá-me forças, Senhor, porque estou sob o jugo de um homem que conhece toda essa história, sabendo, ao demais, que sou a voz da complacência.

Em suas mãos tem ele agora a minha vida; exerço sobre ele uma fascinação especial; quisera poder matar-me sem que ele fosse o autor da minha morte... Que fará de mim? Só Deus o sabe.

Rodolfo é temível.

Há muito, muito tempo já, um pobre ancião pôs misterioso fim aos seus dias, sendo eu seu confessor. O tóxico ingerido não foi violento quanto o presumia, e assim é que me mandou chamar para que o ajudasse a morrer. Nas vascas da morte, nessa hora suprema, nesse instante em que os homens mais degradados se não atrevem a mentir, ouvi-lhe o seguinte: - “Atentei contra a existência para evitar um outro crime, ou antes, preferi ser criminoso para que meu filho o não fosse. Li no olhar de Rodolfo a minha sentença de morte e, para lhe poupar o parricídio, resolvi deixar o mundo. Meu filho odeia-me por ser eu o único homem que lhe pode dizer de frente que ele é um miserável. Padre, eu vo-lo recomendo; velai por ele, sede o seu segundo pai, já que o primeiro houve de fugir-lhe, para evitar horrendo crime. Assim me releve Deus a causa fatal da minha morte.”
Falecido o ancião, uns olhos de fogo logo se cravaram em mim.  


Rodolfo, escondido atrás das pesadas cortinas do leito paterno, ouvira a confissão e avançou para mim, rugindo qual ferido leão. Subjuguei-o pelo braço e disse: - “Desgraçado, foge daqui e não profanes o cadáver de teu pai.” Não obstante ser jovem e vigoroso, constringi entre as minhas as suas mãos de ferro, obrigando-o a sair do aposento mortuário, e lhe disse: - “Fere-me se quiseres.” Deixei-o e ele fitou-me de frente, chegando a levantar a destra; mas, quando lhe fixei por minha vez o olhar, caiu ferido como se um raio o tocara, proferindo horrível blasfêmia.

Pouco tempo depois, o conde de A... chamava-me para a última confissão, dizendo: - “Padre, tenho uma única filha e essa foi desonrada por esse Rodolfo; quis lavar em sangue a nódoa da minha honra, vendo que ele se negava a dar-lhe o nome; desafiei-o para um duelo e ele me disse que não se batia com valetudinários. Isso foi mero pretexto, com receio de que eu o matasse, uma vez que o braço do ofendido recebe o impulso de Deus. Meu intento era matá-lo e internar minha filha Berta num convento. Ele, porém, mais astuto, feriu-me pelas costas. Conquanto embuçado, bem o reconheci. Este assassínio é por todos ignorado, pois a todos ocultei o nome do celerado; a pobre Berta também o ignora e meu nome ficará desonrado se o casamento se não realizar com o sedutor. Em vós confio, Padre, e só morrerei tranquilo se me jurardes que obrigareis Rodolfo a dar seu nome a minha filha.” Prometi àquela vítima da sua honra o cumprimento de tão nobre desejo, e, ato contínuo, procurei Rodolfo para dizer-lhe que tinha nas mãos a sua vida, sabedor que era dos seus terríveis segredos. Ele, aterrorizado e subjugado por minha vontade, acedeu, e, antes de morrer, o conde de A... abençoava a união de Berta e Rodolfo. Se me pedissem juramento, eu juraria que a alma do conde de A... havia servido de testemunha à sagrada cerimônia, tão nitidamente o via ao lado da filha.

Quem o sabe? Logo após, Berta foi para o campo passar o alojamento e dar à luz um menino de semblante contrafeito, espantosamente feio, que eu batizei secretamente, uma vez que, por honra da mãe, se conviera em ocultar o nascimento daquele menino vindo ao mundo com má estrela, pois sua mãe horrorizava-se dele, enquanto Rodolfo repetia que não poderia dar seu nome a semelhante monstro.

Tomei a meu cargo aquela criança, entregando-a a uma camponesa, em propriedade vizinha à aldeia. Os pais foram viajar e durante oito meses nada se soube a seu respeito; o menino, entretanto, pálido e esquelético, vivia mercê dos cuidados que se lhe prodigalizavam. Era um ser repulsivo, de violento caráter; mas comigo sorria, e eu, sem saber por que, ao beijá-lo, sentia opresso o coração.

Uma bela manhã apareceu-me a ama chorando e dizendo que lhe haviam levado o menino.
  • Quem? - perguntei, aflito.
  • O próprio pai, senhor; há três dias veio aqui, deu-me muito dinheiro e, por mais que lho suplicasse, não concordou em deixá-lo, dizendo que a mãe queria vê-lo.
Retirou-se a pobre mulher, e eu sem perda de tempo me pus a caminho do senhorial castelo de Rodolfo, onde os criados me disseram que os amos ali estiveram, não havia quinze minutos, sem contudo me falarem do menino.

E eu, ao ficar só, chorei sem saber por que chorava; chorei esse pranto cujas gotas de fogo refluem das pupilas para cair perpendicularmente no coração.

Aquele menino sempre me inspirou profundissima compaixão, porque a mãe o não amava, como prova, que era, da sua fraqueza. O pai também não queria que ele lhe herdasse o nome, vendo nele um ser estigmatizado pela cólera de Deus, pois a ignorância atribui a Deus ódios e vinganças, sem razão de ser.

Mas, de absurdos se compõe o mundo. Naquela noite não dormi, dizendo-me alguém ao ouvido que a criança fora massacrada.

Tais suspeitas me perduraram no espírito, estando a Sultão reservado o encontro do cadáver daquele inocentinho. Uma tarde, passeando pelo mais esconso da floresta, no alto da montanha ao pé de um cedro secular, observei que Sultão escavava a terra com furor, e, ajudando-o, depressa encontrei, envolto num manto, o cadáver do filho de Rodolfo, em perfeito estado de conservação.
O morto delatava o matador, porque só seus pais eram os inimigos daquele pobre ser. Nem dúvidas me restaram de que eles, de mútuo acordo, talvez, tinham matado o pobrezinho.


Tornei a enterrar o cadáver, reguei a terra da sepulturacom as minhas lágrimas e regressei a casa para experimentar aguda enfermidade.

A infâmia dos homens é o veneno mais enérgico para as almas sensíveis.

A ninguém relatei o triste achado, porque, dos crimes cometidos pelos grandes, sempre os pequenos são as vítimas; escrevi, porém, a Rodolfo e obtive o silêncio, para não falar de uma espantosa perseguição que me moveu mais tarde.

Anos depois, Rodolfo adquiriu renome e grande influência na Corte e assim foi que, em todos os sucessos da minha vida, tomou ele parte direta ou indireta. Certo é que sempre nos encontramos, fixando-me ele o seu feroz olhar, porque não podia perdoar-me o conhecimento dos seus crimes. Para mim, ele não passa de um miserável e isto o exaspera, tanto mais quanto se empenha em parecer impoluto.

Ninguém ostenta mais virtudes do que aquele que virtudes não possui.

Entre nós lateja um mistério: ele odeia-me e, quando comigo encara, seu olhar me diz que lamenta não me haver estrangulado diante do cadáver do pai; se sou eu a encará-lo, fecha os olhos como deslumbrado e foge desesperado. Em compensação, eu o amo. Por quê? Não sei... Talvez nos haja unido qualquer laço em outras existências! Apenas sei dizer que, não obstante reconhecer nele um grande criminoso, o estimo; sim o estimo de todo o coração, no fundo do qual há para ele todo um mundo de ternura.


Para ele, tanto quanto para o menino que repousa junto ao cedro da montanha.

Muitas, muitas vezes o pequenino assassinado me desperta recordações e elevo sobre a sua cova uma prece fervorosa.

Sabidos, ultimamente, o segredo e o mistério dos últimos anos da vida de Constantino de Hus, Rodolfo tem-se mostrado o mais interessado no assunto, porque encontrou ocasião propícia à minha perda e quer aproveitá-la.

Eu, porém, estou nos braços de Deus e deixo obrar os homens.
E Deus me protege, indubitavelmente vela por mim.
Disso não me resta a menor dúvida.


Há meses, Rodolfo procurou-me munido de uma ordem expressa para levar-me consigo, a fim de me apresentar aos meus superiores e ser concomitantemente julgado pelos tribunais da Igreja e do Estado.

Por que não me obrigou a segui-lo? Por que, depois de ouvir e cumprir a penitência que lhe impus, deixou-me livre sem que eu nada mais procurasse saber dele? Por que tudo isso?

Ah! é porque acima de todos os ódios humanos está a imutável justiça de Deus!
Sim! Deus é justo!
Uma noite, a sós no meu quarto, entra Rodolfo exclamando com pungente ironia:
  • Sabeis o que se faz com os acoitadores de criminosos? –  Quê? - perguntei-lhe friamente.
  • Agrilhoam-se com uma algema bem apertada.
  • Nesse caso, há muito tempo que eu devia estar algemado.
  • Finalmente, confessais vosso delito...
  • Como não confessá-lo... se tu és o meu cúmplice?
  • Eu? que dizeis?
  • A verdade, porque foste tu o primeiro assassino de quem tive misericórdia.
  • Vede bem como falais...
  • Estamos sós, Rodolfo, e é por isso que assim falo. Lembras-te? - e tomei-lhe entre as minhas uma das suas mãos, a olhá-lo fixamente. - Lembras-te? Faz vinte e cinco anos que morreu teu pai e tu... lhe ouviste a confissão. O confessor causou-te embaraço, porém... viveu para teu castigo; depois... passaram-se cinco anos e morreu o conde de A... Sabemos nós quem o matou... Casaste com a filha do assassinado e há pouco tempo nasceu um herdeiro do teu nome...
Oito meses apenas esteve ele no mundo e, ao fim de prazo tão curto, um ser sem coração, um pai sem entranhas, um monstro de iniquidade o arrebatou do berço, porque aquele deformado estorvava uma mãe sem alma. Aquele pobre entezinho, por sua espantosa fealdade, se vos figurava um castigo de Deus e, para fugir do ridículo, nada melhor que suprimi-lo! Que te parece, Roldofo? Não é verdade que o pai daquela inocente criatura é bem um miserável? Matar, assim, um ente indefeso, pelo delito único de ser desgraçado?...
  • Calai-vos, calai-vos! Não sei mesmo por que ainda viveis, sombra maldita da minha vida! O que em mim se passa, quando ao vosso lado, não o compreendo... apenas sei que a vós não sei dizer - não. Dizeis-me os segredos terríveis da minha fatal existência e eu os escuto sem vos entregar ao eterno mutismo. Não me encareis assim, livrai-me dessa espécie de fascinação que sobre mim exerceis; não me aperteis assim a mão, que ao vosso contacto é como se chumbo derretido me circulasse nas veias.
Larguei-lhe a mão, assentei-me e ele ficou de pé, olhando-me com furor concentrado e dizendo por mim:
  • Bem me dizia ela!
  • Ela, quem? - Quem há de ser? Berta, minha esposa, que, sabendo que vos vinha ver, acompanhou-me, dizendo: - “Aquele homem é feiticeiro; com suas bruxarias subjuga-te e nós não conseguiremos nossos desejos.”
  • Deixar-te-ei fazer o que quiseres; interroga-me e dir-te-ei tudo quanto desejas saber.
  • Mas, que vos perguntarei se já sei tudo, se já estou inteirado da história de Hus? Acaso não é verdadeira? –  Certíssima.
  • E por que apadrinhais malfeitores?
  • Pela mesma razão por que te apadrinhei a ti; porque conto sempre mais com a persuasão do que com o castigo rude, e ainda bem que tenho conseguido bons resultados; só tu, criminoso impenitente, segues numa escala descendente para o fundo abismo. Espero, contudo, que te deterás no plano inclinado dos teus vícios. E que te deténs, não resta dúvida, pois sei quanto me odeias; sei que sou o tormento dos teus dias; sei que se quiseras não te faltariam assalariados que me aniquilassem e, no entanto, neste ponto, teu pensamento desfalece.
Demais, sabes que tens grandes crimes; ninguém, senão eu, os conhece, pois a verdade é que, logo após o achado sinistro do cadáver de teu filho, não trepidei em escrever-te, averbando-te de iníquo infanticida.

Nada me respondeste, porque nada tinhas que responder, pois a mim não podes mentir. A tua mulher também causa tormento pois ela compreende perfeitamente que eu sei medir sua conivência no último crime. Sois ricos e poderosos, vosso prestígio pode perder-me, pode arrojar-me a um calabouço para não mais ver a luz do Sol...

Por que, pois, não o fazes? Por que não me acusas de acobertar os grandes pecados? Queres saber por quê? queres que to diga?
  • Dizei...
  • É porque te domino moralmente; é porque a piedade é a arma mais potente da Terra e tu te sentes pequeno diante de mim!
Tu, o nobre! Tu, o favorito de um rei; de um rei que dispõe a seu talante dos poderes do Estado... Como abdicares, assim, dos teus direitos em face de um pobre velho, que tem a monomania de amar os seus semelhantes? Corre, vai, delata; dize a esse que Constantino de Hus expirou nos meus braços... Manda força armada para prender-me, já que não tens a coragem de fazer! Que te importa a ti um crime a mais?
Quem há sido duplamente parricida e uma vez infanticida, bem pode denunciar um benfeitor da Humanidade, que nas suas preces não cessa de rogar a Deus pelo progresso do teu Espírito.
  • Calai-vos, Padre, calai-vos...
  • Desgraçado, minha voz é talvez a única que na Terra te diz a verdade. Não estás farto de crimes? Pensas que te não entendo? Acreditas que ignoro todas as intrigas em que te envolves? Desventurado! Até quando pretendes viver assim? Pois não compreendes que não há culpas sem castigo? Mataste teu filho porque era um aborto de fealdade; pretendias um descendente mais bonito, mas tua mulher ficou estéril: assim devera ser, porque a vida deve extinguir-se onde o crime deixa as suas manchas. Pensa no amanhã, Rodolfo... pensa no amanhã...
Ele encarou-me fixamente. Levantei-me, cheguei-lhe uma cadeira e fi-lo sentar-se, sentando-me a seu lado e tomando-lhe em seguida uma das mãos geladas.

Olhei-o também com a maior doçura, até que, pouco a pouco dominado, suavizou-se-lhe a dura fisionomia, dizendo-me:
  • Não sei, não sei o que se passa comigo em relação a vós; de sobejo sabeis que vos odeio e com ódio tal que só se extinguiria com a vossa morte... Meu passado, por vezes, me acabrunha; mas, sobretudo, o que mais me excrucia é a convicção de que outro homem conhece meus segredos. Tenho recursos infalíveis para vos perder, porque vós desafiais os tribunais; mas, quando vou firmar a ordem de prisão, a pena me escapa da mão, enquanto dor aguda me fere o coração. Levanto-me, então, procurando fugir de mim mesmo.
  • E eu me felicito que assim seja, meu filho, não por mim mas por ti mesmo, pois é isto um sinal de que teu espírito começa a sentir alguma coisa. Eu, perdendo a vida, que perderei? Uma existência solitária, cheia de misérias e contrariedades. No mundo, sinto frio, frio, muito frio... ao passo que, dentro de um sepulcro, no seio da terra fecunda, estaria mais abrigado... Advirto-te, porém, que minha morte será um novo remorso para teu espírito. Acaso te ofendi? Não; fui para contigo o que tenho sido para todos os outros: um ministro de Deus, que acredita ser interprete da sua misericórdia, perdoando e amando o delinquente. Eis aí todo o meu crime. Alguém te conduz aqui, porque já soou a hora em que deves iniciar tua regeneração; olha, teus cabelos já se vão prateando; tocaste a meta do poderio na Terra, mas... além existe alguma coisa, Rodolfo, e eu não quero morrer sem te deixar no bom caminho...
  • Mas, que hei de fazer para começar? Deixar-vos livre? –
  • Isso me é absolutamente indiferente, porque, onde quer que me encontre, caminharei para Deus. O que te peço é outra coisa.
  • Que é?
  • Quero que amanhã, ao despontar da aurora, vás rezar com tua mulher sobre a sepultura de teu filho. Acredita-me: mais vale que a visites em vida do que permaneceres junto dela por séculos e séculos, depois de morto. Dá o primeiro passo, Rodolfo, pois nunca é tarde para Deus.
Ele tremia, fitando-me; e eu, cônscio do poder que sobre ele exercia, roguei a Deus bastante força de vontade para dominá-lo. Toda a noite orei, roguei para que não faltasse e não faltou.

No dia seguinte, bem cedo, lá fui orar sob o arvoredo que sombreava a cova do menino, e não tardou visse subirem Rodolfo e Berta pela encosta da montanha. Prosternei-me então de joelhos, e exclamei:
- “Senhor! tu que vês, tu que lês no fundo do meu coração, inspira-me nestes instantes supremos, para que estes dois seres sintam o dardo do remorso na mente atribulada e implorem a tua misericórdia com sincero arrependimento.”

Chegados que foram, Rodolfo e Berta ajoelharam sem dizer palavras. Estavam pálidos, agitados, convulsos, olhando como que receosos para todos os lados. Ela ajoelhou-se e orou; ele, recostado ficou ao tronco, semi-oculto pela ramagem.

Aproximei-me de Berta e disse:

- Olha-me, não tenhas medo; não sou nem mágico, nem bruxo; sou apenas um ministro de Deus que deplora o teu crime.

A tais palavras, comoveu-se até às lágrimas e eu acrescentei:

- Não tentes estancar o pranto! chora, infeliz, chora sobre a tumba de teu filho, cujas cinzas assim regadas produzirão flores. Chora, que o pranto é o Jordão bendito, no qual se purifica das manchas do pecado a Humanidade fratricida.

Chora, mulher ingrata; chora, já que repudiaste a fecundidade que te concedeu o Senhor! Medita na tua longa esterilidade. Arrojaste do seio o inocentinho que te pedia amor e em ti se estancaram as fontes da vida. Olha, contempla a escarpa que vens de galgar; todo o monte está coberto de verde alfombra e, no entanto, só na trilha que percorreste a erva se tornou amarelada, porque as pegadas do criminoso só deixam a morte na sua passagem.

Rodolfo e Berta descortinaram a senda que lhes indicava, e tal era o poder da minha voz, tão potente a vontade de impressionar aqueles espíritos rebeldes, tão decidida minh'alma a comovê-los, tão fervente a prece erguida a Deus, tão profunda a minha fé, tão grande o meu desejo, tão puro o sentimento e tão profunda a inspiração, que, por um momento, me vi rodeado de figuras luminosas a dizerem-me: - “Fala, que Deus te ouve.” E eu lhes disse profeticamente: - “Olhai, olhai... Vedes o vosso rastro? Levais convosco a desolação e a morte, porque tudo se aniquila sob as pegadas do criminoso!”

E eu também via aquela erva fanada, de uma cor gualda, e não cessava de exclamar: - “Olhai! Terras estéreis, planuras ressequidas, eis o que haveis de percorrer sempre, sem tréguas nem descanso; pedireis água e pão e as fontes secarão, os trigais serão levados pelo vento, porque a Natureza não dá frutos para os filhos ingratos. Volvei, agora, ao vosso dourado ergástulo; embriagai-vos dos vossos festins, engalanai-vos de purpurinos trajes; enganai-vos a vós mesmos, mas lembrai-vos de que as pegadas do criminoso deixam sempre um rastro de morte.”

Berta chorou e Rodolfo fitou-me com olhar inexplicável, olhar que retratava todas as suas paixões; depois, tomou-me da mão e acrescentou com voz trêmula:

- Vou-me embora... Aqui, ficaria louco, mas... voltarei.

E desceu rápido. Berta se me apoiou ao braço, e, vagarosos, descemos também.

De vez em quando, ele olhava para trás e eu pedia a Deus para que a seus olhos a erva murchasse. E murchava, e fato, porque meu desejo era tão ardente, que, creio, com meu hálito de fogo se crestaria o mundo inteiro.

A infeliz tremia espantada e dizia-me:
  • Padre, a erva está murchando.
  • Sim, tal como murchou teu coração; mas Deus, se o quiseres, dar-te-á uma eterna primavera. Ama os pobres, acolhe os enfermos, os órfãos, os desvalidos; pratica a verdadeira, a sublime caridade. Ama, já que não amaste conscientemente! Sente, já que não sentiste; arrepende-te, pobre pecadora, porque para Deus nunca é tardio o arrependimento; confia, espera em Deus e da tua senda hoje emurchecida verás brotar as mais formosas flores.
Antes de entrar na aldeia, separamo-nos e Rodolfo repetiu que voltaria.

Alguns meses já decorreram e ele não voltou. Longe de mim, seu ódio terá recrudescido, mas estou certo de que, quando penso na regeneração daqueles dois entes, quando a Deus imploro vejam em sonhos a senda da montanha com a erva murcha ouvem eles a minha voz - as pegadas do criminoso só deixam um rastro de morte, arrependei-vos!...

Isto eu peço a Deus com a fé profunda que se me aninha n'alma e Deus deve ouvir minha fervorosa súplica.

Que será deles? E de mim mesmo que será? A Ti me entrego, Senhor, para que Tua vontade se cumpra, porque Tu és o sábio dos sábios, o maior dos maiores. Tu és Deus e a infinita sabedoria só Tu a possuis!




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